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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Harpia- parte 1




A noite chuvosa ensopava o sobretudo que, mesmo sob a proteção do guarda-chuva oferecia o mínimo de proteção. Por sorte era uma das malditas chuvas de verão que eram eram comuns, quase que diárias em Dezembro. Mas não era a chuva que irritava o vereador, e sim a espera que consumia quase que 30 min de seu precioso tempo. Estava ansioso para voltar ao motel, se reunir com a sua secretária e só depois voltar para casa. Mas esse encontro era mais importante no momento. Importância tal que o fazia esperar longos  trinta minutos debaixo de uma maldita chuva que lhe instigava os piore sentimentos. Mas enfim ele chegou. Também de sobretudo e guarda chuva, vinha andando calmamente como se a chuva lhe trouxesse sensações agradáveis, contrariando ainda mais o vereador que só queria sair daquele inferno molhado. Estranhou por um momento que Júlio usava um boné com algum desenho estranho e óculos como que tentando disfarçar o rosto usando um disfarce clichê de filme policial. "Eu tinha que fazer negócio com principiante" pensou o vereador querendo ainda mais sair dessa situação antes incômoda, agora perigosa. Bastava uma foto tirada de algum celular para comprometer sua vida política e pessoal. Aliás a sua e de outros nobres colegas. Era a primeira vez que via Júlio pessoalmente sendo que até então usavam redes sociais para conversar o que deixou ainda mais forte o ar de estranheza do momento. Enquanto se aproximava, viu o quanto uma pessoa pode ser tão diferente quando comparada com uma foto. "Por isso que odeio essas porcarias. Mas dane-se quero acabar logo com isso. Cíntia deve estar impaciente no quarto e não quero ladainhas hoje". Os pés do vereador agora estavam como uva passa de tão molhados que estavam no sapato. Para essa ocasião havia pedido para Cíntia comprar um par de sapato descartáveis de camelô para poupar os usuais de trabalho. Ignorando esse fato foi andando ao encontro de Júlio com uma das magras mãos no guarda-chuva e o outro no bolso do sobretudo retirando um bolo de papéis envolto num plástico. Uma ultima olhada nervosa para certificar-se de que nenhum terceiro olhar estava por perto, o vereador inicia a conversa: 
- Júlio. 
-Vereador Santiago. 
Voz mansa e suave, diferente da que ele imaginava. Mas prosseguiu, quanto menos conversa, mais cedo terminava o negócio. Notou que Júlio também colocou a mão no bolso. Retirando os papéis adiantou: 
-  Aqui está. Todas as rotas e viagens lembrando que todos podem sofrer alterações. Cadê o dinheiro? 
Quando a mão de Júlio saiu do bolso, em vez do dinheiro uma Desert Eagle com silenciador. No rosto, um sorriso ao mesmo tempo tranquilo, prazeroso e... lindo. Júlio tinha um belo e fino rosto que os óculos e o boné escondiam. Foi nesse momento que percebeu que...
-Uma mulher. Você é uma mulher!! 
- Desde que nasci, Me entregue as rotas. 
Santiago estava num misto de surpresa e medo: 
- M-m-mas quem é v-você? 
- Com toda a sua perspicácia ainda não percebeu vereador? Enquanto falava ajeitou o boné chamando a atenção do vereador para o desenho que estava nele deixando-o mais admirado do que antes: 
-Não! v-v-você  deveria estar...
Era uma noite de surpresas, e essa última encerrou ao mesmo tempo a noite e a vida do vereador. Dor no peito. Sangue. Sorriso e o boné. Cujo desenho ele jamais esquecera.Cujo desenho ele achava que jamais veria. Cujo desenho ele levará para o além-vida.
O desenho de uma Harpia.      

domingo, 11 de janeiro de 2015

Caos- Parte 2




-Você andou lendo muita história pra crianças, pequeno. -Caos ainda ria muito da pergunta de Fábio- Em outros tempos eu me sentiria ofendido por atribuirem meu trabalho a um ser inexistente. Mas aprendi a compreender os humanos e até me divertir com eles. Afinal, eu também era. 
Fábio ainda estava boquiaberto. Não imaginava que ainda pudesse ser surpreendido, a pequenez ainda tomava conta de si, e ao mesmo tempo, tudo era tão engraçado e tão irônico e  fazia um sentido louco, era mais que compreensível a explicação de Caos. E sabia que viria mais. 
- Certo, então tem outros...quem são? 
- Não dá pra falar de todos, não agora. Alguns se apresentarão no devido tempo, outros você nunca verá e nem mesmo ouvirá falar a respeito, mas vou te apresentar meu gêmeo...
- Ordem? 
- hahahahahaha não pequeno, realmente você realmente olha tudo já buscando respostas, tipico de Guias. Por acaso seu nome é "morte"?
Definitivamente Fábio se sentia uma criança na sala com uma professora dando aulas e fazendo chacotas ao mesmo tempo, mas a curiosidade por respostas era mais forte do que qualquer sensação que pudesse sentir, além do fato de que ele não podia deixar de concordar com Caos...
-Não, não é...
-É só questão de pensar com calma e de forma ampliada pequeno, você é novo nisso e por isso levará tempo. Ainda pensa como humano e isso afeta um pouco...
-De fato- Fábio lembrara que Caos estava numa maturidade a milênios da dele- mas me diga, onde está o seu irmão? 
-Irmão não. Gêmeo. É diferente, alguns de nós temos um gêmeo, que faz o oposto do que fazemos e ao mesmo tempo complementa o nosso trabalho e vice versa. Por exemplo, eu posso ser substituído e o meu gêmeo, assim, será gêmeo do meu substituto entende?  
-Hum... entendi sim, e cada vez que voc... a Sra fala entendo mais... e quem é o seu gêmeo? 
-Destino. E ele está bem atrás de você.
Destino deveria ser um ser imponente considerando que o papel dele era rearrumar as bagunças de Caos. Fábio imaginou um ser misterioso dentro de uma capa como ele costumava ler em seus gibis quando humano, para a sua surpresa ao se virar viu que Destino era apenas...
-Uma criança?
Aparentava ter entre 5 e 6 anos e levava na mão um lápis com borracha na ponta e um bloco de papel com marcas de rabiscos e gasto. Havia algo de autoritário em seus olhos. Apesar de infantil, a voz era carregada de conhecimento milenar: 
-Sim, sou uma criança e não, não sou uma criança, não mais, da mesma forma que você não é mais humano e nem Caos. Somos parte da Harmonia e fazemos nosso trabalho. Simples assim. E antes que você pergunte, eu escrevo o destino das pessoas aqui no bloco e Caos faz o favor de desviar-lhes da rota que tracei o que me obriga a apagar e escrever tudo de novo...
-Perdoe Destino, pequeno -Caos era puro doce até para interromper alguém- como meu oposto, ele é naturalmente diferente de mim inclusive no temperamento. Eu não desvio ninguém, ele sabe disso, apenas ofereço oportunidades que eles escolhem se aceitam ou não. Destino reescreve colocando em ordem a bagunça que as vidas se tornam até que eu...
-Bagunce novamente... Fábio tinha plena noção do que representava os seres à sua frente, via como apesar de Destino reclamar da sua função ele tinha consciência dela e executava com precisão. Caos não era ruim ao bagunçar a vida das pessoas e Destino não era tão bom ao traçar caminhos prontos para elas. ambos precisavam um do outro justamente para que nada se tornasse uma destruição mas também para que nada se tornasse um marasmo completo de regras estabelecias. Caos emanava uma bagunça serena na sua cabeça dificultando o entendimento e criando mais e mais perguntas enquanto Destino emanava uma rudeza objetiva que facilitava o pensamento. Não pôde deixar de observar isso nos dois. Destino e Caos eram definitivamente gêmeos. E só funcionavam juntos 
-Adorei conhecê-los nos encontraremos novamente? 
Destino se antecipou: 
-Nunca se sabe garoto, você viu as besteiras que Caos pode fazer e o meu trabalho em ajustar tudo. Nosso encontro pode ser inevitável ou impossível. Aliás vá logo porque você tem muitos pontos finais hoje.
o Guia sabia agora que, mesmo não os vendo pessoalmente, Destino e Caos trabalhavam com ele. Sabia que, de alguma forma a assinatura de um deles ou dos dois sempre estará em cada alma visitada. Longas despedidas eram desnecessárias, então mais um clarão e o Guia estava de volta ao trabalho.

Dedicado a Dione Neiva, Mateus Soares, Rebeca Oliveira, Julyana Oliveira e Kate Rayanny
                

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Criar. Contar. Mostrar. parte 3


Paradise
Esse texto conta a história de uma moça viajante cujo nome é Sol. Ela é uma hippie cheia de boas vibes. Toda suave de dreads longos e loiros, pele branca com muitas tatuagens. Para cada tatuagem um significado, a maioria delas simbolizam a liberdade, como a árvore de galhos secos com pássaros em sua perna. 
Morava em uma ilha formada somente de hippies onde todos se conheciam. Um lugar lindo onde só vibram o amor e a paz. Mas Sol, sempre determinada em suas ações colocou em sua mente que que queria sair e andar sem direção, sem destino. Queria conhecer pessoas novas, sentir uma nova vibe e ver o mundo como ele é fora da sua aldeia. Então ela saiu e os caminhos por onde por onde passava encontrou de tudo: gente diferente, lugares impressionantes, vistas lindas, paisagens e outras coisas. Admirada com tudo que estava conhecendo e cada momento surgia a vontade de conhecer mais e mais. Sol viu de tudo um pouco: do candomblé ao cristianismo  e todas as religiões possíveis. Viu tudo o que tinha que ver e conhecer com apenas 20 anos de idade. No caminho da sua viagem sem fim conheceu um rapaz soteropolitano que logo se apaixonou pelo jeito  lindo e meigo da moça e assim resolveu seguir viagem com ela. era tudo que ela queria para a sua vida, Sol então estava se sentindo realizada com tantas coisas boas em sua vida! quando uma inesperada surpresa estraga sua linda vida. Após ter voltado de um passeio encontra o seu amor jogado no canto do quarto morto. Triste, ela se desespera e sem pensar se mata, pois o amor que sentia pelo rapaz era tamanha que sol não suportaria mais viver só 

domingo, 26 de outubro de 2014

Criar, Contar, Mostrar. Parte 2


Beka
Beka, 16 anos, 1,65 de altura, cabelos loiros e curtos, olhos escuros e um sorriso conquistador. Uma garota diferente de todas as outras ao contrario de muitas e sempre determinada. O seu maior sonho é viajar pelo mundo, muito aventureira e sempre buscando coisas novas.
Mas algo lhe impedia de prosseguir com seu sonho: a descoberta de um câncer em um dos seus pulmões que a impede de realizar seus desejos, mas com sua determinação todas as barreiras vão ser quebradas. A vontade de alcançar seus objetivos é maior que a sua doença. 

...

Enfim, a história continua, a descoberta da sua doença não abalou Beka em nada. Os sonhos continuaram e ela conheceu um jovem que por sinal adora aventuras como ela. Como sua doença ainda estava na fase de descoberta, a garota com a ajuda de seus pais e do seu amigo decidiu sair pelo mundo afora afim de realizar seus desejos antes que a doença tomasse suas forças. ela chegou ao seu primeiro destino onde presenciou sua primeira aventura e nisso Beka foi viajando, viajando e com o passar do tempo a doença foi agravando e ela já não tinha mais forças para prosseguir. Mas uma coisa alegrava seu coração e a fazia esquecer os problemas: era saber que alcançou suas metas ao lado das pessoas que ela amava e em pouco tempo o maldito câncer levou a vida da jovem sonhadora, mas entre tudo isso é bom lembrar que o câncer não conseguiu tirar dela a vontade, a determinação e a conquista de seus objetivos. 

por: Jamille, Tamara, Rebeca, Rafaela e Leonardo

sábado, 25 de outubro de 2014

Projeto Criar, Contar, Mostrar. parte 1- Joãozinho


Salve galera!! Como todos sabem a não ser que esteja descobrindo isso agora sou estudante de Letras com Inglês cujo fim está próximo e me proporcionou ótimas experiencias. Uma delas gerou o que estou compartilhando agora. É o projeto Criar, Contar, Mostrar feito sob a coordenação da Profa Nadja Maciel no colégio Juiz Jorge Faria Góes com a junção de turmas do 3° ano. A galera escreveu contos e posteriormente criaram peças teatrais. Aqui estarei dividindo com vocês as criações deles e pra começar...


Joãozinho
Joãozinho estava passeando na rua. Logo ele encontra um rapaz que pergunta que horas são. Ele responde: "16:20". O rapaz começa a falar com ele e conversa vai, conversa vem, a hora vai passando...  Depois dessa longa conversa se tornaram grandes amigos. No dia seguinte eles começaram a se encontrar para para ir às baladas. O amigo pediu um tempo a joãozinho. Com o passar do tempo, ele descobre que o amigo era um tremendo traficante e no dia seguinte percebeu que a sua vida está sendo ameaçada. Começou a ser perseguido por pessoas que não conhecia. No dia seguinte, ao chegar no portão foi surpreendido por dois elementos em uma moto, desceram e efetuaram vários disparos. Joãozinho tomou um susto e percebeu que tudo não passou de um sonho.
Por: Thailany, Juilson, Camila, jocineide e Crislaine.          

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Caos- parte 1



-Acho que agora posso ir em paz... Obrigado por tudo tá? 
- Não há de quê. Que bom que está em paz. Vá tranquilo, nos veremos por aí.
E mais um trabalho cumprido pelo guia. Algum tempo se passou desde o primeiro contato, mas ele não se esquece de nenhuma pessoa, independente das ações feitas em vida, más ou boas. Às vezes ainda lembrava daquele Fábio cujo nome ele ainda pedia pra que o chamassem quando sentia algum afeto pela alma guiada, mas já não havia essa separação, não que o afeto tenha diminuído. Pelo contrário, cada alma era nobre, tinha a sua virtude e o Guia reconhecia a todos, pois não cabia a ele julgar nenhuma. Claro que algumas davam trabalho, mas faz parte "cada um tem seu tempo", ele sempre repetia para si. Resolveu andar um pouco, faz muito tempo que ele não desfrutava desse ato, já que estava em vários lugares ao mesmo tempo, o que  tornava andar ainda mais prazeroso. Após alguns minutos foi tomado de uma surpresa quando uma voz atrás de si o chamou:  
-Olá moço, você deve ser o Guia não é? 
Ao mesmo tempo inacreditável e intrigante, alguém o estava enxergando, mas logo era perceptível que já não era desse mundo, não por ter uma aparência idosa e um tanto cansada mas o Guia, com o tempo reconhecia tranquilamente a aura de quem não era desse mundo. Seria uma alma esquecida ou que voltou? Apenas com uma pergunta  essa duvida seria esclarecida:
-Quem é você? 
A Sra, não podia disfarçar um misto de tristeza e soberania:
- Credo, eu esperava mais do Guia, ouvi dizer que você faz um ótimo trabalho, mas já vi que respeito e conhecimento não são seus pontos fortes. Sou um colega seu meu caro, na verdade praticamente trabalhamos juntos. E separados também. 
- Juntos? Mas nunca te vi antes...  
- Todos nós trabalhamos juntos pequeno, cada um na sua jurisdição fazendo o que lhe cabe, mas no fim todos nós trabalhamos pra uma única garantia...  
-Harmonia.- O Guia por algum tempo se sentiu Fábio novamente. Nunca pensou a respeito de outros como ele e agora estava intrigado por saber de tudo ao mesmo tempo com a tipica curiosidade juvenil. Claro que agora ele tinha a benção da experiencia e sabia que todas as respostas viriam a seu momento:
 -Por favor, continue.
A Sra sempre paciente e com um sorriso característico de uma avó contando história para um neto curioso continuou..
-Pra você entender melhor recomendo que me siga, eu sei que você tem tempo sobrando agora. 
Fábio conhecia a sensação, afinal ele mesmo viaja o tempo todo assim, primeiro o escuro e depois o clarão,  da primeira vez que viajou assim demorou uns segundos, agora é tão rápido que chega a ser imperceptível. Logo eles já estão em outro destino. Ele ainda quieto apenas ouvia a Sra falando:
- Está  vendo aquela garota? 
- A que está sentada? 
-É. e ta vendo o rapaz lá adiante atravessando a rua? 
-Sim.
- Acha que eles dariam um bom par? 
- Não, são muito diferentes. Ela é mais jovial, esportiva. Ele é formal pra caramba, com aquele terno e maleta, provavelmente um executivo ou algo assim.  
- E se eu dissesse que eles amam Metallica? 
- Eu diria que nenhum dos dois aparentam isso.
- E se eu dissesse que eles estão indo pro mesmo lugar? 
-Agora estou bem curioso. Que lugar?  
-Vão se matricular no mesmo curso de inglês e vão se reconhecer lá. 
- Mas são tão difer... você não quis dizer conhecer?
-Não. Eu quis dizer reconhecer mesmo. Eles tem os mesmos gostos, já estiveram nos mesmos ambientes, até alguns amigos tem em comum. Só que nunca se notaram. Você sabia que eles adoram comer pipoca com chocolate em pó e leite condensado por cima?
- hahahahahah. Isso é realmente hilário. Nunca diria isso... mas como você... a Sra sabe dessas coisas? 
-Eu vejo as almas garoto, você também vê, mas apenas superficialmente e momentaneamente. Eu os vejo no sentido mais amplo, vejo todos e o tempo inteiro sei do que gostam, seus medos e... vamos chegando até ela, me acompanhe por favor.. suas vontades e até seu segredos. E esse é meu instrumento de trabalho.
 Fabio meio que já sabia quem era ela e queria fazer uma pergunta, mas sabia que não era hora, então apenas ouvia e observava ela pegar um papel qualquer no chão e, usando da direção do vento, fazer o papel ir de encontro ao rosto da garota que ao olhá-lo, expressou surpresa, depois dúvida, e um tempo depois verificou a bolsa levantou e saiu correndo na mesma direção que o rapaz formal foi.
-O que a Sra fez?- Fábio dessa vez estava realmente intrigado.
- Mostrei uma oportunidade a ela. O papel era um panfleto promocional de um curso de inglês que ela sonhava em fazer mas que não sabia que estava em período de matricula. Provavelmente verificou documentos e dinheiro para matricular-se. Apenas mostrei uma oportunidade e ela aceitou. 
- Como a Sra sabia que ela ia...?
-Essa é a graça. Não sabia. Como eu disse, Mostrei a oportunidade, ela abraçou e foi. Não é divertido?
-hahahaha. Demais, Nunca ia imaginar que algo assim tivesse alguém pra organizar tudo...
-Quem falou em organizar? Justamente o contrário garoto, eles estavam em plena organização de suas vidas, ela acabou de se estabilizar na faculdade e ele é gerente da empresa que trabalha. Ambos quando se reconhecerem tomarão o maior choque de suas vidas. Vão enlouquecer, morrer de ciumes, tentar entender, e ver o mundo deles virar de ponta cabeça. Em outras palavras, eu trouxe a bagunça na vida deles. hahahahah
- Mas por que? 
-Porquê é isso que eu faço, é isso que o sentimento faz, tira as pessoas do comodismo e coloca elas numa posição que as obriga a ver a vida de outra forma. Como você e Lu.
Fábio só pôde sorrir e concordar. Sua pergunta foi respondida sem que ele precisasse abrir a boca. Claro que aquela Sra simpática estava por traz da história louca deles. E mais uma vez ele pôde ver tudo e viu como ainda era pequeno diante de tanta coisa grandiosa da qual ele fazia parte e percebeu que ainda tinha muito o que aprender e muito que fazer. Sorrindo, só pôde constatar:
-Então a Sra é o cupido...
A Sra irrompeu uma gargalhada que o deixou desnorteado por segundos
- Aí é que você se engana garoto, eu sou o Caos. 

continua...

Dedicado aos meus queridíssimos Mateus soares, Dione Neiva, Julyana oliveira e Bruna Santos.

       

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ukufa Parte 3



Luana quase morre de susto.
- FÁBIO???!!! O-o que você está fazendo aqui? Como chegou aí em cima?

-Vim te visitar, papear um pouco e te contar uma coisa.
- Me visitar? Então você sabe que lugar é esse? É estranho, simplesmente acordei aqui e achei tudo muito...
-...Tranquilo?
-É... como você sabe? E o que é que você tem pra me contar?
Fábio escutara tudo com um sorriso no rosto achando graça e surpresa ao mesmo tempo. A primeira coisa que percebeu foi a presença da macieira. Não poderia começar melhor. Por isso fez sua chegada em seus galhos. Sua garota e uma macieira. Tudo que ele que ele queria. Mas Luana estava ali e precisava de atenção: 
-Uma pergunta por vez Lu. Vamos com calma.
- Você pedindo calma? quando foi que você virou uma pessoa calma?  
-Engraçado né? Tive um amigo que deu uma força nesse sentido... mas vamos lá Lu, pra começo de conversa você não está mais no mundo que você vivia. Estamos em outro lugar e bem longe. Como eu disse vim pra te visitar e papear um pouco. Me responde uma coisa: você curte macieiras né?
- Cara, eu gosto demais. Você nunca reparou na cesta que fica na mesa da cozinha? Vivia cheia de maçã da roça do meu avô...  e tipo veio a calhar essa macieira, assim que vi simplesmente me deu vontade de sentar aqui. como se meu avô estivesse aqui sabe...
Enquanto Luana falava, Fábio sente um certo arrependimento por não observar certos detalhes importantes pra ela. Não fazia nem ideia da existência de tal cesta na casa dela. sempre que almoçavam na casa dela, ele se concentrava em impressionar os pais dela e sair dali. agora, uma simples cesta é deveras importante pra ela ao mesmo tempo que é simplesmente insignificante pra ele.
-Desculpa Lu, nunca percebi nunca percebi. Mas devo lhe dizer que foi você quem colocou essa macieira aqui...
- Eu? Não me lembro de ter feito isso. Não lembro nem como vim parar aqui...
-Faz parte do Processo Lu. Tem muitas formas de acontecer. Cada pessoa é um caso diferente. Sua mente construiu um lugar só pra você enquanto transitava pra cá. Sei que quer saber onde é "aqui". Essa é a sua nova casa. Inclusive está incompleta ainda.
- O quê? Casa? eu quero ir pra MINHA casa Fábio!!! Seja lá que lugar for esse, se eu construí ou não tanto faz!!
- Lu, lembra que falei sobre estarmos em outro mundo? Agora que seu espirito se acostumou sua mente agora precisa aceitar. Você não pode voltar porquê não há mais vida no seu corpo. 
- Então é verdade. Eu... morri... Por isso que foi tudo tão "do nada"... meu primeiro pensamento era me perguntar se estava no céu... aqui é o céu Fábio? E porquê você apareceu? Você é real?
- hahhahahahaha Sim Lu, eu sou real. antes de você, eu morri mas eu tenho a função de guiar as pessoas. pra você ter uma ideia eu estou  nesse exato momento com mais 215 mulheres e 318 homens com a sua idade só aqui no Brasil. Sem contar todos os outros. É divertido e triste ao mesmo. Uns aceitam de bom grado, outros se negam, alguns ainda se apegam de tal forma que tentam possuir outros corpos. É horrível Lu. mas tem os que recebem como um alívio e felicidade.
-Nossa eu nem sabia que você tinha... como foi? e tipo, eu vou ficar aqui pra sempre? e só?
-Acidente de carro eu acho, mas isso não tem importância mais. Essas decisões é você quem vai tomar. mas no fim das contas será como você deseja. No fim do Processo você estará feliz e tranquila. Se aqui é o Céu é uma dessas escolhas.Você ficará bem Lu. Você não estará sozinha. A não ser que você queira. Aqui é sua casa. Agora preciso deixá-la. Antes um comentário: sabia que também sou louco por macieira?
Luana ia esboçar uma resposta mas tão rápido como chegou Fábio se foi. Ela queria se despedir, falar do relacionamento desgastado deles e que apesar de tudo sentia saudades. Mas por outro lado sabia que não era o mesmo Fábio, pelo menos não completamente. Algo de Fábio se perdeu na sua nova função. Ia pensar muito sobre isso mas agora queria arrumar sua nova "casa" já que aceitou tão bem sua nova condição. Ao se virar de costas tão surpresa quanto admirada só pôde rir e apreciar o mar de macieiras que agora se encontrava na sua frente. 
Pegou uma maçã e deitou na grama fechando os olhos. 

-Cleyton Vidal

E Com Vocês...



Estávamos sentados à mesa do jantar comendo as batatas que sua mãe à pouco cozinhara, olhar para ele ali em minha frente dizendo coisas que pouco me importavam era estanho, sempre fiz isso, mas desta vez soava como um egoísmo forçado de minha parte. Nada era igual há sete anos, ele parecia mais jovem e carregava em si uma energia invejável, enquanto eu apresentava o semblante cansado de uma velha esclerosada, mas não era um cansaço físico, era algo mental, como se minha mente não processasse mais tudo aquilo que ele dizia. Eu só precisava olhar, observar seus lábios mexendo ritmados enquanto seus olhos arregalados acompanhavam o compasso de sua cabeça que subia e descia numa forma de código para saber se eu estava entendendo ou não. Minha cabeça respondia que sim. Porém por dentro eu só conseguia pensar cala-a-boca-seu-cretino. Por muitas vezes pensei comigo mesmo enquanto ele fazia seu interminável monólogo sorte-sua-que-eu-te-amo, e talvez seja sorte mesmo, uma sorte filha da puta que eu saiba de tantas falhas e ainda continue me deitando com ele todas as noites, que eu ainda ouça coisas que para mim não fazem o menor sentido, mas continue concordando com a cabeça para ver aquele sorriso de satisfação enquanto só quero que se cale. O jantar meio improvisado demorou de chegar ao fim. Enfim colocamos os pratos sobre a pia, eu sabia exatamente onde aquilo iria acabar, ou melhor, não iria, nada acaba quando se trata de nós, fica tudo pairando como uma interrogação solta num papel A4, sentei-me na cama cruzando as perna estilo indiozinho enquanto ele trocava de roupa para dormir. Esperei que parasse em minha frente já de pau duro e me pedisse para chupá-lo, não o fez, fiquei olhando com a cabeça baixa e os olhos virados para cima, código perfeito para dizer quero-te-chupar sem ter que dizer quero-te-chupar. Fico feliz quando ele entende sem precisar dizer, apenas vem, coloca o pau em minha boca, e deixa com que eu faça o resto. Eu poderia chupá-lo a noite inteira, talvez meu egoísmo termine aí, talvez seja aí que eu demonstre meu perdão, o silêncio que paira sobre esse momento de entrega unilateral seja o meu perdão, eu preciso disto, da sua fala hipócrita dizendo que me ama depois de receber um belo boquete, das suas mãos envolvendo-me por completo enquanto dormimos. A noite carrega a angústia de tê-lo de volta, eu poderia ter deixado ir, meu egoísmo me assusta, eu o trouxe de volta e o prendi num mundo no qual ele não cabe mais. Um mundo que não cabe nós dois, que não cabe as suas falas exageradas, mas eu o trouxe. Agora carrego a responsabilidade de ter que perdoar, de ouvir o que não quero ouvir, de sibilar que entendo quando não entendo nada, de amar, de fazer com que não vá outra vez. Talvez eu seja recompensada por isso com mentiras que preciso escutar ou talvez nunca seja, e eu acorde deste engano antes que ele desperte pela manhã muito cedo, e me acorde com um beijo, fazendo que eu mais uma vez desista de tudo e apenas fique.

Ilana Maia


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

E com vocês...



As horas passavam de forma arrastada, o caminhar dos dias ainda não havia se acostumado à sua falta, o cheiro de sua pele permacera em meus cabelos por longos dias mesmo depois de lavados, seu toque, seu jeito de segurar-me os ombros numa tentativa de manter-se sempre perto, mesmo que isto fosse algo perigoso demais. A fala mansa de quem não tem pressa nenhuma de que o dia termine, então ele fazia que os dias fossem intermináveis, sua pele sempre quente em meio ao frio londrino e os beijos roubados às escondidas. Agora o relógio conta os minutos da sua ausência, os ponteiros fazem-me voltar no tempo e ver seu sorriso confidenciando coisas, enquanto falava sibilando suas metáforas eu me imaginava mergulhando em sua face.


O trem não demorava a chegar, a estação lotada dava ainda mais a sensação de nostalgia que a cena exigia, havíamos voltado para o nosso lugar, de onde fugimos durante muito tempo, agora que seu abraço me cabia perfeitamente, me bastava, tivemos que partir. Conforme a chegada do trem se aproximava e as malas pesavam mais do que o normal, pois agora carregavam alguma coisa a mais ali, algo que não me pertencia, percebi que ter olhado as fronteiras do mundo de outra forma fizeram a angústia parecer mais amena. Mas o peso da saudade ficou, saudade das palavras não ditas, das memórias um tanto confusas, daquilo que não houve. Subi no trem, carregando as malas e na cabeça algumas interrogações, esperando o “até logo” que não existiu.

-Ilana Benne

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

E com Vocês...

O Voo


Sentada na poltrona 419, fitando outros aviões através da janela, Lisa Thompson se questionava o porquê daquele número uma vez que o avião era ligeiramente pequeno.
Na verdade havia muitas coisas estranhas naquele avião, como a estrutura das poltronas, por exemplo, que ao invés de serem organizadas em trios eram organizadas em duplas. A pequena TV da poltrona da frente não ligava para que ela pudesse usufruir dos programas de entretenimento e música. O tamanho do avião era estranho também, pois exteriormente era do tamanho de um Boeing, mas o interior se assemelhava a um pequeno avião particular.
Assim que alguma comissária de bordo se apresentasse, ela procuraria suas respostas.
− Lisa?
Ela virou o pescoço para ver o corredor;
− Henry! Que bom vê-lo! – saudou ela ao ver seu ex-colega de trabalho.
Ela saíra de seu antigo emprego há dois meses e ele ainda trabalhava lá. Tinham uma relação formidável no trabalho.
− Como você está? − Perguntou ele sentando-se ao seu lado.
− Estou ótima! Você vai viajar aí?
 − Sim! Minha poltrona é a 420.
            Antes que Lisa pudesse comentar a estranheza com relação aos números das poltronas, o avião deu a partida. Ele correu pela pista e levantou voo. O nariz erguido pra cima, pronto para rasgar os céus.
− Henry...
− O que foi?
− Estou com medo.
Henry segurou sua mão. Por uma fração de segundo, Lisa sentiu seu coração bater como nos tempos em que trabalhavam juntos, mas reprimiu os sentimentos novamente ao ver na mão dele a aliança dourada. Nunca conhecera a mulher dele, nem mesmo sabia seu nome, mas Lisa sabia que ele era casado.
− Tem medo de voar?
− Não, não é isso. É que nenhuma comissária passou por nós pra conferir os cintos e tudo o mais, não vieram às orientações formais sobre segurança, o piloto não falou conosco... Tem alguma coisa errada.
− Sinceramente, acho um saco aquela vozinha robótica dando essas instruções. Nem me faz falta.
− Mesmo assim Henry...
− Lisa, relaxa! Daqui a pouco nós chegamos, o importante é que estamos bem e...
− FOGO!!!!
          Henry se calou, Lisa se pôs de pé, mas caiu sentada com uma guinada que o avião deu.
O berro viera do meio do corredor no polo oposto. Um passageiro dizia ver fogo na asa do avião e o pânico se espalhava por quem constatava tal informação.
Henry estava pálido e em choque, Lisa chorava mas não gritava, somente pedia a Deus que não a deixasse morrer.
O avião começou a perder altitude.
− Todo mundo calado! – berrou alguém que estava em pé no corredor do avião.
Lisa se aprumou em sua poltrona e viu que o homem tinha uma arma em sua mão.
− Se vocês ficarem em pânico não vai adiantar nada! Berrou o homem que segurava a arma. 
Henry estava chorando agora. Em desespero.
Lisa se perguntava como aquele homem entrara no avião armado, a segurança nos aeroportos era extrema e ele certamente passara pelo detector de metais antes de entrar no avião.
Mas Lisa não se lembrava de ter passado pelo detector de metais. Na verdade ela nem se lembrava de ter feito o check-in e nem de pra onde estava indo. Não lembrava-se nem mesmo de onde estava vindo.
− Henry... Henry olha pra mim!
− Eu não quero morrer Lisa! Eu não quero morrer! Minha mulher... ela está grávida, Lisa! A Christine vai ter um bebê! Eu não quero morrer! – as lágrimas lavavam seu rosto.
O nariz do avião inclinou-se para baixo... era uma questão de instantes para colidir com o solo.
− Henry, por favor! Me responda: Para onde este avião estava indo?
− Para Londres, Lisa! Eu não posso morrer!
− Henry! Por favor, olha pra mim! Isso não é real! Estamos sonhando! Quando esse avião colidir com o chão, vamos acordar em nossas camas, entendeu?
Henry fitava Lisa atônito. Que loucura era aquela?
Lisa não via outra explicação. Aquilo tudo não fazia sentido. Não podia ser real. Nada naquele avião fazia sentido algum.
− Que loucura é essa Lisa?
− Me diga: Você se lembra de ter feito o check-in? De ter passado do aeroporto pra cá?
− Sim! Eu me lembro! A atendente do balcão inclusive era de aparência oriental... eu passei por uma livraria também antes de embarcar...
De repente a teoria que Lisa havia concluído perdera o sentido. O avião mergulhou com tudo rumo ao chão e o desespero de Lisa aumentou. Iria morrer, as pessoas naquele voo não estavam sonhando. Mas... e se somente ela estivesse?
        Então houve fogo. O rosto de Henry desesperado foi a ultima visão de Lisa antes de eles serem consumidos pelas chamas.
         
             Lisa acordou.
          O relógio digital da mesa de cabeceira da sua cama indicava que eram 4:19 da manhã. Estava muito suada e a respiração era ofegante. Agradeceu a Deus por ser apenas um sonho. Por estar em terra firme, por estar sã e salva em Nova Jersey.
Pegou seu celular, tinha o número de Henry e discou. Estava tão impressionada que não se importou com o horário.
− Alô? – atendeu uma mulher.
− Christine...? – arriscou Lisa.
− Sim, e você, quem é?
− Sou Lisa, seu marido e eu trabalhávamos juntos, ele está?
         − Não, ele acabou de sair para uma reunião em Londres, disse que pegaria uma carona no jatinho do seu chefe....
               Lisa verificou as horas novamente. 4:20.

Raphael Costa
http://canecadehistorias.blogspot.com.br/2014/08/o-voo-sentada-na-poltrona-419fitando.html



segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ukufa Parte 2


Cinco minutos depois e Fábio ainda lutava para acreditar no que tinha acabado de ouvir. Cinco minutos atrás Fábio queria saber quem era o garoto estranho dentro da sua casa. Agora ele nem sabia se o garoto era realmente um garoto ou se era realmente uma pessoa. 
-Sente-se Fábio. Você ainda está em processo. 
Era só o que ele queria. Sentar. Sentar e esquecer tudo. Agora ele só quer voltar a vida normal e seguir vivendo. Mas as palavras que o  garoto estranho pronunciara a cinco minutos só agora estão arrumadas de forma a fazer sentido racional e que as palavras 'normal" e "vida" não se aplicam mais. Explicações. Ele precisa de explicações. Tem que ter uma explicação. Mas pra isso ele tem que pedir. Oito quilos de coragem para pronunciar as palavras:
-E-então estou morto...
-Sim. 
-E não tem volta.
-Não. 
-Como foi? Porquê eu não me lembro?
O garoto, sempre calmo e sorridente, teve toda a paciência do universo para explicar a Fábio o que houve:
-Acontece muito Fábio. Principalmente casos como o seu. Foi muito rápido e sua mente não teve tempo de assimilar a situação. Como a mente e o espirito são uma coisa só, você seguiu normalmente acreditando estar vivo. Pense que é como se você tivesse reiniciado... 
- ... mas sem o Hardware, entendi. Fábio não podia deixar de achar graça na situação. Amante de computadores desde criança e o garoto estranho faz analogia justamente a algo que ele domina tão bem. mas uma pergunta não podia deixar de ser feita:
- Mas pra onde eu vou agora?
- É aí que está. Tenho outra coisa pra te dizer. Você vai me substituir.
se não estivesse sentado Fabio ia de novo procurar um lugar pra cair. Como se não bastasse a noticia de sua própria morte agora ele vai...
-Eu vou matar pessoas???
- hahaha.. Não Fábio você não vai matar ninguém. Você vai garantir a Harmonia. só isso. 
- Mas que harmonia? E que papo é esse de não matar? Se eu sou a morte eu vou matar!!  
o garoto não pôde disfarçar como achava que aquela conversa era de certa forma divertida.
-Fique tranquilo, vou te explicar com calma. Uma pergunta de cada vez. Harmonia é o processo das coisas naturais, tudo precisa de Harmonia, seu corpo, por exemplo, possui células, muitas dessas células precisam morrer para dar lugar para outras novas trabalharem. Isso é Harmonia. Mas você não vai precisar matar ninguém. Não é assim que funciona. Você será o Guia. Resumindo você vai fazer...
-O que você está fazendo comigo agora. Mas... porquê eu?
-Harmonia Fábio, acabei de te explicar. Isso ocorre com tudo, tudo mesmo. Plantas, animais, estrelas... até divindades passam pelo processo. Por isso que o mundo muda, ideias mudam, valores mudam. O Guia precisa mudar também, hoje sou eu. Um dia você será substituído também. A Harmonia não tem um porque, tem um propósito, e o propósito da Harmonia é que a Vida continue existindo.
Fábio queria assimilar tudo. Era pouco tempo com aquele garoto estranho mas agora havia a sensação de uma certa familiaridade, como se conhecessem de algum tempo. As dúvidas que estalavam na mente, à medida que iam sendo explicadas iam se esvaindo, e Fábio sentia como se seu HD estivesse sendo formatado e novos softwares sendo instalados. Era uma sensação, apesar de estranha, boa. Já era possível aceitar a sua nova condição. O garoto parecia perceber isso e já se preparava para ir.
-Vejo que entendeu tudo. Na verdade você já estava entendendo antes de eu chegar.
-Como assim?
- Por quê você voltou pra casa?
De inicio Fábio não entendeu a ideia, mas  a pergunta trouxe à memória quando ele de repente resolveu voltar pra casa, sua súbita vontade de se afastar de tudo e de todos, a casa no campo e a maciera...
-E-eu não sei bem que queria vir pra casa porquê não lembrava pra onde ia e quis voltar porquê aqui é...
-Tranquilo. Aqui é o seu refúgio, aqui você sente paz, aqui ninguém te enche o saco né? Chama-se Processo. Você abandona tudo e vai pro seu lugar favorito. Acontece muito em casos como o seu.
-Entendi. Mas espera aí, porquê você disse que estava atrasado?
-Hahahaha entrada triunfal, gosto muito de fazer isso. É legal ver a expressão de estranheza da pessoa. Você poderia experimentar. Acho que o que eu mais sentirei falta. Mas agora preciso mesmo ir e você tem trabalho.
-E pra onde você vai? o que você fazia antes de ser... hã... Guia? E é assim? Eu já começo?
-Sobre pra onde vou e de onde vim conversamos se nos encontrarmos de novo Fábio. Alguns mistérios são legais de manter. E Sim. É assim que começa. Daqui a 10 minutos para ser mais exato. Você já sabe o que precisa pra começar. A continuação agora é com você. Quando eu sair você vai saber pra onde ir e o que fazer. Você vai se sair bem. Gostei de ter te conhecido.
E com essas palavras o garoto estranho, levantou, saiu e fechou a porta, Fábio queria perguntar o nome  e a idade dele, a quanto tempo ele era o Guia, mas sabia que ele não ia responder, porquê alguns mistérios são legais de manter. E, como prometido, assim que a porta bateu, Fábio ainda sentado, fechou os olhos. E viu tudo. Todas as células do seu corpo, as permanentes, as que estavam morrendo e nascendo agora, as pessoas da sua cidade, do mundo inteiro, toda a História humana ou não, plantas, animais, guerras, desastres e logo ele viu o universo e em exatos 9 minutos ele viu a Harmonia e tudo ficou claro. Um pouco de concentração e sua primeira visita estava agendada. Ele não deixou de rir com a ironia da situação. Se o garoto estivesse ali eles provavelmente iriam rir juntos, se é que ele não etá rindo agora. Sem mudar sua posição e com um piscar lento de olhos, logo ele estava sentado no galho de uma maciera balançando as pernas sobre a cabeça de uma jovem sentada pensativa que não percebeu sua presença ali. "uma entrada triunfal" ele pensou. Sorrindo e sem se mover usou as melhores palavras que encontrou:
-Oi Lu.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ukufa Parte 1.


Fábio se assustou com o clarão. De repente o escuro. De repente tudo normal. A cabeça latejava um pouco mas não era de dor. Só latejava. Resolveu seguir seu caminho só que ele não lembrava pra onde ia e nem de onde vinha. Na dúvida a volta pra casa era a melhor opção. Até lembrar onde mora foram uns cinco minutos, até porquê o barulho de um grupo de pessoas não o deixava raciocinar. O que eles falavam não era importante, ir pra casa era importante e se afastar das pessoas também. Na verdade havia uma estranha vontade de se afastar de tudo e de todos. Não importa o lugar desde que não houvesse barulho de carros buzinando ou pessoas conversando as bobagens de sempre. Pensando bem, ir pra casa não era tão importante assim. Uma nova casa. Isso era importante agora, queria uma casa longe e solitária, um lugar só seu, com um violão e um rio. E macieras. Fábio nunca viu uma maciera na vida e tinha muita curiosidade de conhecer então decidiu que na sua casa nova haverá uma maciera e era tudo que importava agora. Nem reatar com Luana era tão importante. Nem lembrava o que os separou e nem queria saber. Talvez nem ia procurá-la mais. Enquanto pensava, Fábio andava e logo estava em casa. A sua velha casa bagunçada e cheia de lixo que ele agora fazia planos para livrar-se. Estranhou a porta aberta mas logo estava amaldiçoando a si mesmo por esquecer a porta aberta de novo. Assim que entrou se assustou com um garoto em pé e sorridente olhando pra ele
-Oi Fábio desculpa o atraso- disse.  

sábado, 29 de março de 2014

Mais Um Dia...



Acordando...

Olho irritado e entorpecido para o relógio sem querer acordar. Decepcionado. 7:00 da manhã ainda. Queria que fossem 23:59. O dia já teria passado, os compromissos já teriam passado, o tédio já teria passado. E eu voltaria a dormir.Meu corpo e minha mente não entram em consenso, um quer continuar na cama e ou outro quer sair dela e vice-versa. A única coisa em comum entre ambos é o fato de estarem bastante afetados pelos últimos acontecimentos. Irritado pela indecisão deles eu deixo tudo no piloto automático e só volto a mim mesmo já no chuveiro com a água gelada descendo pelas minhas costas. Poderia ficar aqui o dia inteiro e só sair às 23:59. O dia teria passado, os compromissos... deixa pra lá. Não poderia fazer isso mesmo, as pessoas me procurariam e iam querer saber o que aconteceu comigo e iriam me processar e me repudiar por ter desperdiçado tanta água. Elas iriam me xingar eu iria xingar de volta elas iriam me odiar e eu as odiaria também, e pra acabar com tudo eu ia juntar uma grana, comprar uma metralhadora e...
E como um dedo que liga um botão de uma máquina qualquer, a água gelada liga meu cérebro.

Definitivamente acordado.

Penso em tudo que tenho que fazer no dia. Adoro e odeio esse exercício mental porquê sempre esqueço de algo, mas meu médico não está nem aí. Ele mandou e eu faço. Decido quais são importantes e quais não são. Obviamente, tomar café está no topo da lista e estudar em último. algo me diz que terei problemas quanto a essa ordem, mas por ora é isso. Percebo que tomei muito tempo fazendo isso e que a preguiça é uma grande responsável por isso. Na verdade, eu não quero fazer mais da metade das coisas que tenho pra fazer. Não sei mesmo de onde saiu tanta responsabilidade, eu devo ter uns 40 anos e ter muito dinheiro pra cuidar de tanta coisa em tão pouco tempo. ou pelo menos deveria ser assim. Quando estou a ponto de jogar tudo pro alto o meu café da manhã acende meu lado racional. Chega de drama e de devaneios, se tenho muita cosia pra fazer é porquê escolhi assim. Poderia ser muitas coisas, mas escolhi ser quem sou e é tempo de aceitar isso. Vivo num mundo triste e monótono, tudo que eu faço é para sair desse mar triste e medíocre. Mas pra isso primeiro tenho que sair de casa. Com um belo estralar de costas e um grito  que com certeza vai me render uma inflamação na garganta, arremesso a caneca vazia de café na parede e acrescento mais um item na minha lista mental: comprar uma caneca nova.   

-Cleyton Vidal

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Alice


Eram 5:30 da manhã quando Alice vestiu-se e saiu da casa de Carlos deixando para trás apenas o aroma do seu perfume francês barato que ela sabia o quanto ele adorava e que ela sabia que em pouco tempo iria desvanecer-se como a vida do policial em suas mãos. "Desculpe querido", disse quando passou suavemente seus dedos pelo rosto do cadáver, "nada pessoal, foi preciso". Já passeando pela calçada, Alice sorria com a doçura de uma criança e com a malícia de de uma serpente pós-bote. Certificou-se que ninguém a viu nem quando entrou aos beijos com Carlos nem quando saiu furtivamente sem ele. Na sua mão estava bem seguro um belo anel dourado com um quadrado desenhado cujo interior havia um círculo com um ponto. Carlos não sabia e nem poderia saber. O adorno que depois de tanto tempo voltou para as suas mãos era um dos seus bens mais valiosos. Ainda tinha a leve lembrança de quando foi-lhe dado pela madre cujo nome ela não lembrava mais. Lembrava do seu rosto, do seu sorriso amável e do momento que lhe entregou o anel e disse: "Vá com Deus querida. e seja boa". Desde a sua saída, Alice nunca soube se Deus de fato a acompanhou ou se a largou à própria sorte, mas ela sempre teve por preferencia a segunda opção. Mas o anel sempre estava lá. E ela era boa, sabia que era boa. Foi boa com Carlos quando o impediu de descobrir como a última  pessoa que tirou o anel dela encontrou seu fim, foi boa porquê o permitiu ter uma última noite de prazer antes de entregá-lo para a morte. Foi boa porquê permitiu a ele uma morte limpa, sem sofrimento nem dor. "Sim eu fui boa" disse para si mesma enquanto uma lágrima brotava do seu olho esquerdo. Enquanto apagava aquela lágrima do rosto, Alice teve um momento de lucidez quando percebeu que havia entrado num táxi e o motorista não se sabe por quanto tempo olhava para ela como quem já tivesse perguntado: "para onde senhora?". Sem pensar muito e ignorando tudo a sua volta, Alice entregou uma nota de cem. "Dirija", disse. "Apenas dirija". Recostando no banco de trás, ela apenas queria lembrar quão bem seguiu o conselho da velha madre. Foi boa com o primeiro namorado que ensinou a ela tudo que sabia, e quando ela quis ir embora ele não quis deixar e ela tirou dele as correntes que o aprisionavam nesta vida sofrida, foi boa quando deu o primeiro e ultimo beijo de boa noite na mãe recém encontrada num leito de hospital. Foi boa quando mudou seu nome, sua identidade e sua alma para que o mundo desistisse de procurar a menininha que saiu do orfanato e virou uma bela e bondosa mulher que agora reclina e delira no táxi. Ao olhar para o anel lembrou do seu ato de bondade quando o tiraram dela. "Um simples ladrão de bolsa que pesou ter roubado meu coração", lembrou, ficou dois dias em sua casa partilhando da sua cama, da sua comida e do seu chuveiro, "tudo porquê fui boa" então ele viu algo no anel, algum dinheiro e achou merecedor de tudo e simplesmente sumiu como deve ter feito com tantas outras. Alice teve que ser boa de novo, mas não para ele, ele não merecia bondade, era um rompedor de corações e um ladrãozinho qualquer. Tinha que ser boa para os futuros corações quebrados por ele, e para a sua querida madre que lhe dera o anel com tanto amor. Então ela foi boa "boa até demais, talvez tenha exagerado na bondade." havia esquecido de pegar o anel tamanha foi a generosidade. Mas o que importa agora é que tudo passou. Talvez um ultimo ato de bondade com o motorista do táxi que insistia em olhá-la pelo retrovisor. "Talvez" pensou enquanto se reclinava e deixava a mente ir " por enquanto apenas dirija motorista", falou em sua mente, "apenas dirija".  

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Insonia


A mente é um turbilhão de pensamentos, o sono está presente mas o corpo se recusa a descansar. A irritação é uma constante pois em determinado momento sei que não conseguirei dormir por um bom tempo. Agora resta a incerteza de quando a situação estará favorável para desfrutar da minha cama antes aconchegante, se transformou na minha câmara de tortura. É nesse clima de paradoxo que minha aventura começa. Dizem que não é bom olhar pro relógio porquê a ansiedade aumenta e com isso a famigerada insonia piora. Seguindo esse conselho não faço a mínima ideia de que horas são quando vou tomar o segundo banho da madrugada. Segundo porquê o primeiro já foi parte do meu ritual pré sono. Passando o tempo percebo que a minha batalha irá se estender madrugada adentro e já que o tema veio à mente pego o meu "Cronicas de Gelo e Fogo" e faço uma bela viagem para Westeros (entendedores entenderão). Ainda não sei que horas nem quanto tempo se passou depois da ultima vez que venci a tentação de olhar para o relógio. deito novamente e toda a mazela volta a se repetir como replay de gol do brasil narrado por Galvão. "Que se dane, vou jogar a noite toda agora vou fazer virote", falo comigo mesmo enquanto levanto revoltado em direção ao pc com os olhos ardendo de sono, pouco sabendo eu que a insonia já tinha decretado que eu ficaria de olhos abertos por toda noite. Mas fui vivendo a minha ilusão e joguei um playlist das musicas mais pesadas e logo estava descarregando minha frustração pela noite perdida nos personagens e nos outros players. Dessa vez larguei o maldito conselho de lado e vi que ainda eram 3:30 da manhã. Incrível como o Cronos segue diferente da nossa cabeça. "bem que poderia tentar dormir" pensei, mas o de pensamento de ficar fazendo 360° na cama novamente me fez deixar pra lá a vontade e continuei a jogar a té que percebi que a situação se inverteu, o que era uns 30 min pra mim se revelou uma bela 1h e meia quando olhei pro relógio e vi que já havia passado das 5. Fui pra ultima tentativa, dessa vez no sofá enquanto botei um filme qualquer no pc. Claro que sofri mais uma frustração porquê os primeiros raios do dia logo entravam pela janela  só pra me sacanear e me lembrar do meu fracasso noturno. Logo lembrei que fazia tempo que não via o nascer do sol. "Vamos ver se essa noite perdida vale a pena" pensei enquanto peguei minha câmera e saí pra fazer umas imagens...

Cleyton Vidal

domingo, 12 de janeiro de 2014

Amanhecer


Agora são 06:16 da matina. Não consegui pregar os olhos por mais de 10 min. O famoso "virote". Faz tempo desde o ultimo caso. Nem lembro mais. Mas lembro como é chato ficar dando voltas na cama em busca do sono perdido. Quase sempre acordo revoltado pela noite perdida e com a sensação de cansaço o dia todo. Mas hoje algo ocorreu. Havia chovido pouco à noite e o sol estava saindo às 5 e 30. O mau humor  ainda não havia se instalado em mim então resolvi aproveitar e sentir um pouco do sol com a minha câmera. "Lá vai o babaca de manhã cedo com a câmera na mão" pensei. Estava sem fazer nada então achei que não seria nada mal em fazer umas imagens. Meu medo era que o vigia ainda não tivesse prendido os cães e eu tivesse uma péssima surpresa, mas, abri a porta e encarei a frente de casa. A brisa um pouco fria tomava o ar mas logo o calor característico já tomava meu corpo. Ignorei a sensação e logo estava procurando algo que valia a pena registrar. logo estava eu, fazendo fotos de mato e achando o máximo a minha câmera nova. Só queria algo mais, algo que me chamasse a atenção. "vamos lá Deus" pensei."me surpreenda". Certo de que Deus tinha mais o que fazer do que dar ouvidos para um mané lesado qualquer continuei a focar meu olhar coisas que ia achando legais e registrando. O tempo inteiro tava com medo dos cachorros aparecerem e eu ter que entrar correndo em casa. Aos poucos fui me desafiando e dando passos à frente e as coisas foram melhorando. quando dei por mim estava uns 10 metros de casa e vendo maravilhas e registrando tudo. É incrível o que você encontra na frente da sua casa quando você para pra observar. A chuva deixou algumas plantas com cara de viva. A maioria estava bem verde ( ou será que eram verdes e eu nunca notei isso?) e praticamente fazendo pose para minha câmera. Então olhei para um ponto para o qual nunca tinha andado depois que fizeram o mercado. Um ponto que eu ainda não tinha caminhado. O lugar tinha se tornado um deserto qualquer sem função e se encontrava do lado da minha casa e lá fui eu cagando de medo dos malditos cachorros que já tinha latido várias vezes na minha mente. quando olhei ao redor quase que podia ouvir Deus rindo da minha cara: "surpreendente o suficiente pra você?". Quase que um show de cores estava na minha frente de forma ao mesmo tempo simples e impactante. O sol forte iluminava as plantas com várias gotas que resistiam a gravidade me fazendo ter vários devaneios que, se colocasse aqui daria uns 40 postagens então deixa pra lá. Fui com minha câmera mais babaca do que nunca e comecei a registrar os detalhes daquele pequeno espetáculo e pensando que ninguém, ninguém a não ser eu estava ali naquela estava tendo essa oportunidade que nunca voltaria a acontecer porquê cada amanhecer é um único amanhecer como o próprio momento. Quando passa é um adeus. Agora são 06:43 e meus olhos agora reclamam a noite perdida. Mal eles sabem que temos um longo dia pela frente e vão demorar muito a se fechar adequadamente. Se fosse pra deixar uma lição de moral aqui para não fazer meu texto parecer um devaneio seria: aproveite seus momentos, eles passam. só isso. até a próxima. Mas de coração espero não ter mais insônias. É horrível. Outro dia escreverei sobre.Agora vou jogar e ouvir Rock pra ver se desperto.
-Cleyton Vidal

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Carlos



Ainda chovia bastante e Carlos estava revoltado. Seus sapatos estavam encharcados e seu sobretudo aliado ao chapéu ofereciam o mínimo de proteção. Já não bastavam os risos que ele ouvia por causa dessa combinação ultrapassada. Mas dane-se. Ele gosta e é só o que importa. Sua única preocupação agora é encontrar o dono da mão que o gato mastigava quando a menina ligou a luz da cozinha. Bebia grandes goles de café preto para tentar trazer de volta a sobriedade que o álcool havia levado 2 horas antes. A única pista que havia era um anel dourado. Mas o que chamou mesmo sua atenção foi o desenho marcado nele: um quadrado que possuía um círculo com um ponto em seu interior. Após os peritos liberarem, Carlos levou consigo o anel para a sua investigação. O local escolhido por ele para pensar a respeito era onde ele passava a maior parte do tempo: o bar do Luíz. isso depois de comer sanduíche numa esquina qualquer. Incrivelmente o veneno que levava embora a sua sanidade era o mesmo que aumentava sua capacidade dedutiva: a vodca. Com o café servindo de contrapeso, Carlos resolveu experimentar o anel quando teve uma epifania: O anel deveria pertencer a algum grupo mafioso da cidade cujos métodos punitivos são bem cruéis, então, o portador do anel cometeu algum erro pagando com a sua mão esquerda. O mistério agora é descobrir onde está o resto do corpo. Ainda olhando para o anel e refletindo, Carlos sentiu um toque em suas costas seguido por um delicioso e conhecido aroma de perfume francês. 
- Olá Alice. Disse ele sem precisar se virar.    

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A foto.

Quando discretamente eu abri aquele envelope, tinha certeza do que encontraria, claro que não da forma como era. Era uma foto. Nossa foto. Nossa, nem lembrava mais dela, tinha uns 3 ou 4 anos desde que fora tirada e esquecida completamente por mim. Essa foto já foi minha. Eu te dei. E você estava me dando ela novamente. Naquela ocasião tinha um toque todo especial, eu estava me mudando de cidade e não sabia quando voltaria a vê-lo. Junto a foto tinha um bilhete que ainda guardo, não com tanto carinho como guardo a foto.

O engraçado (ou não), é que esta foto é você, quando vou sair beijo o seu lado e digo, "oh meu querido, logo voltarei", e quando chego torno a beijar seu lado e digo cheia de graciosidade "estou de volta". Quando vou dormir, o ritual do beijo se repete e muitas vezes durmo agarrada a ela, nossa, isso é tristemente patético, quando acordo muitas vezes está um pouco amassada ou caída no chão. Aquilo me dói como se você, depois de uma das nossas muitas brigas, estivesse dormindo no chão frio.

Quando brigamos você não dorme comigo, dorme embaixo dos meus livros, como forma de punição por ter sido um garoto mau, por ter me deixado triste e sozinha nesse quarto solitário. Até pensei em perguntar a uma amiga que, se ela guardasse uma foto com tanto apego, isso era prova de paixão, mas acho que não, isso é apenas prova de má resolução dos problemas.

Sua foto está aqui e eu escrevo esse texto, escrevo olhando pra ela, já é madrugada, sei que quando acabá-lo você será minha única companhia, e eu não me importo por isso, é muito bom te sentir perto, mesmo que seja apenas numa foto, mesmo que ela acorde no chão frio. Meu ritual se repetirá como em todas as noites. Beijo seu lado e... "oh querido, boa noite".

- Bruna Santos

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Ana

 
Eram 4 da manhã e a escuridão ainda tomava conta da casa. Ana estava semiacordada pois, não conseguira dormir na sua primeira noite sozinha em casa. "tome cuidado", dizia sua mãe; "tranque bem as portas", alertou seu pai,"pois nunca se sabe o que pode acontecer", sempre repetiam os dois. As primeiras horas eram pura festa, dançava sozinha, cantava mais alto que o som no ultimo volume, corria nua pela casa inteira, e outras liberdades que adolescentes fazem quando estão no controle de uma casa aparentemente vazia. Com a madrugada chegando, no entanto, Ana sentiu o mesmo medo que a protagonista de seu filme de terror favorito ao perceber que, junto com as regras dos pais, sua segurança também estava fora de casa. Ela teria que cuidar de si e da casa. E lá estava Ana dormindo à prestação, acordando de 15 em 15 minutos devido a barulhos que ela não sabia se eram da sala, da cozinha, ou da sua mente. Depois da milésima interrupção de sono ela resolveu levantar para enfrentar seu destino, seja ele morrer pelas mãos do seu monstro assassino ou guardar algum objeto esquecido em seu lugar real e parar de vez aquele barulho infernal. Tateando pela escuridão lá se vai a heroína mais medrosa do mundo enfrentando sua sina e se amaldiçoando por desligar todas as luzes da casa. " Que idiota desliga tudo pra dormir?" se perguntava a cada vez que se esbarrava em algo. Porém, não conseguia localizar o interruptor de luz, na verdade, nenhum deles. Ana julgava estar próximo ao quarto dos pais que era o mais próximo do seu, porém o maldito barulho ela sabia que não vinha de lá e sim ou talvez da sala no fim do corredor. Ainda tateando se deu conta de que o maldito interruptor estava próximo a essa sala e, assim, precisava caminhar muito no escuro pra chegar até ele. Ela se deu conta de que o corredor havia esticado de tamanho. O que geralmente durava segundos para atravessa-lo -ou bem menos hoje quando corria loucamente pela casa- , agora pareciam longos 30 minutos e nada desse fim de corredor. Enquanto ainda questionava sobre o tamanho do corredor, um barulho vindo da porta arrepiou sua espinha. Não sabia se era uma batida, um arranhão, um grito... Era um barulho e quase a mata do coração. Estava provavelmente no meio do corredor e precisava agora tomar uma decisão: voltar correndo para o quarto, ou continuar sua saga e enfrentar seja lá o que for. Contou até três e correu em direção da sala, mas, uma parede surgiu do nada não dando a chance de dar nem três passos pra frente. Recompondo-se, Ana percebeu que estava já no fim do corredor e que apenas precisava de dois passos para o interruptor, que era agora seu novo desafio: encontra-lo. Com todo o medo do mundo em seu coração, tateou a parede em busca do interruptor e da revelação do ser macabro que a fez sair da cama e dar de cara na parede em plena escuridão. Não percebeu quando bateu com a mão e acendeu a luz, mas não do corredor, nem da sala, era a luz da cozinha que ficava de frente pra sala. Ana não entendeu como de repente o corredor aumentava e diminuía de tamanho e cômodos da casa estavam modificados na cabeça dela. Deixando essa mini loucura de lado e com a visão embaçada, Ana abriu a porta e entrou com toda a atitude do mundo na cozinha e viu uma pequena forma atrás da mesa e fazendo o tal barulho revelando o seu nêmesis: Era seu gato Hércules que tinha o hábito de sumir e aparecer quando bem entendesse e conhecia todas as passagens da casa. Mais do que Ana inclusive. "mas é você, Hércules", Ana sentava  no chão com uma mistura de alívio e ódio olhando ainda com dificuldade para Hércules que estava pouco se lixando para o seu drama noturno apenas entretido em sua alimentação. Ana, abraçando o gato em um puro gesto de perdão e já enxergando um pouco melhor, percebeu que o gato que era branco, tinha manchas vermelhas pelo corpo e um cheiro que não era característico dele, Ana estranhou e olhou para o chão na intenção de saber o que Hércules estava comendo e fazendo tanto barulho.
Era uma mão humana.  
-Cleyton Vidal