segunda-feira, 19 de junho de 2017

Harpia- Parte 2


Primeiro veio a dor.
Dor nos pés.
Dor nas mãos.
Dor nos ombros.
Dor no pescoço.
Em seguida percebeu a escuridão que apertava seus olhos. O silêncio que apertava sua boca e a constatação que a gravidade estava contra o seu corpo. Não havia pés no chão, na verdade, não sabia quão distante estava do chão. Torcia para que essa distância não fosse grande pois, caso contrario, o legista terá serias dificuldades em arrumar seu crânio. Como se já não bastasse a incômoda sensação do sangue correndo forçadamente em direção à sua cabeça. ao tentar se mexer, uma voz suave e feminina rompe o silêncio: 
- Ah, finalmente acordou, Sra. Oliveira. Achei que ia ter que te sacudir. Dormiu bem? Deixe-me irar essa mordaça pra facilitar
Tentando manter a frieza e a calma de quem já conhecia esse tipo de situação devido a situação, Sra. Oliveira começa com o seu melhor argumento: 
- Olha, se é dinheiro, me deixe só ligar para o meu marido, ele é senador e me ama muito, mas...
Algo como um pedaço de madeira acerta sua perna e a Sra. Oliveira não pôde conter o grito e a sensação de pânico. Então ela se deu conta que não conhecia tão bem a situação. A voz feminina continuou: 
- Não foi o que eu perguntei querida. Perguntei se dormiu bem. É só a primeira pergunta de algumas que ainda farei. E já percebeu o que acontece quando não responde corretamente. Temos algum tempo antes que o sangue desça todo para a sua cabeça e você desmaie ou morra. Se responder bem eu te solto. Primeira pergunta: Reconhece esse boné? 
O primeiro impulso da Sra. Oliveira era pedir para que a venda fosse retirada. Mas, ao mesmo tempo que sentiu medo de ser agredida de novo, sentiu algo muito afiado e frio na sua orelha esquerda cortar a venda. tão logo esta caiu, e um boné estava à sua frente. Com um desenho único. Uma harpia feita por uma mão única. Talvez a coisa mais difícil da sua vida foi responder: 
- M-m-meu Deus... Você.. como você... 
Mais uma vez o pedaço de madeira na perna. E a resposta final veio com o grito:
-SIM! PELO AMOR DE DEUS!! SIM EU RECONHEÇO! 
-Ótimo. - a voz feminina respondeu- então já sabe que estou pouco me lixando pra quem está te bancando agora. Quero o otário anterior. Onde está Marcelo? 
- Marcelo? eu não...
A terceira madeirada veio com tanta força que balançou o corpo até então acostumado a massagens e cremes da Sra. Oliveira. As lágrimas de dor e desespero só serviram para aumentar a pressão crescente na cabeça. 
- Não me venha com essa de "não sei onde ele está". Vocês são unha e carne". Onde um está, o outro está perto. E sei também que devem se encontrar por aí. 
- Certo, eu digo!! - A Sra Oliveira estava já reunindo as ultimas forças pois a dor já era insuportável- O endereço está no meu celular. A última mensagem dele. Eu estava indo encontrá-lo quando não-sei-como você me trouxe pra cá, agora por favor me deixa ir... 
Um olhar esperançoso implorando por piedade lançou a Sra Oliveira à sua sequestradora que, sorrindo disse: 
-Não disse que prometia deixar ir. Te disse que prometia soltar. E é isso que vou fazer. 
Com a vista turvando, a Sra Oliveira pôde ver a faca que liberou a venda dos seus olhos cortar a corda que a prendia ao teto. Sua última visão foi ver esse mesmo teto se afastar rapidamente antes de voltar à escuridão.             

              
           

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Harpia- parte 1




A noite chuvosa ensopava o sobretudo que, mesmo sob a proteção do guarda-chuva oferecia o mínimo de proteção. Por sorte era uma das malditas chuvas de verão que eram eram comuns, quase que diárias em Dezembro. Mas não era a chuva que irritava o vereador, e sim a espera que consumia quase que 30 min de seu precioso tempo. Estava ansioso para voltar ao motel, se reunir com a sua secretária e só depois voltar para casa. Mas esse encontro era mais importante no momento. Importância tal que o fazia esperar longos  trinta minutos debaixo de uma maldita chuva que lhe instigava os piore sentimentos. Mas enfim ele chegou. Também de sobretudo e guarda chuva, vinha andando calmamente como se a chuva lhe trouxesse sensações agradáveis, contrariando ainda mais o vereador que só queria sair daquele inferno molhado. Estranhou por um momento que Júlio usava um boné com algum desenho estranho e óculos como que tentando disfarçar o rosto usando um disfarce clichê de filme policial. "Eu tinha que fazer negócio com principiante" pensou o vereador querendo ainda mais sair dessa situação antes incômoda, agora perigosa. Bastava uma foto tirada de algum celular para comprometer sua vida política e pessoal. Aliás a sua e de outros nobres colegas. Era a primeira vez que via Júlio pessoalmente sendo que até então usavam redes sociais para conversar o que deixou ainda mais forte o ar de estranheza do momento. Enquanto se aproximava, viu o quanto uma pessoa pode ser tão diferente quando comparada com uma foto. "Por isso que odeio essas porcarias. Mas dane-se quero acabar logo com isso. Cíntia deve estar impaciente no quarto e não quero ladainhas hoje". Os pés do vereador agora estavam como uva passa de tão molhados que estavam no sapato. Para essa ocasião havia pedido para Cíntia comprar um par de sapato descartáveis de camelô para poupar os usuais de trabalho. Ignorando esse fato foi andando ao encontro de Júlio com uma das magras mãos no guarda-chuva e o outro no bolso do sobretudo retirando um bolo de papéis envolto num plástico. Uma ultima olhada nervosa para certificar-se de que nenhum terceiro olhar estava por perto, o vereador inicia a conversa: 
- Júlio. 
-Vereador Santiago. 
Voz mansa e suave, diferente da que ele imaginava. Mas prosseguiu, quanto menos conversa, mais cedo terminava o negócio. Notou que Júlio também colocou a mão no bolso. Retirando os papéis adiantou: 
-  Aqui está. Todas as rotas e viagens lembrando que todos podem sofrer alterações. Cadê o dinheiro? 
Quando a mão de Júlio saiu do bolso, em vez do dinheiro uma Desert Eagle com silenciador. No rosto, um sorriso ao mesmo tempo tranquilo, prazeroso e... lindo. Júlio tinha um belo e fino rosto que os óculos e o boné escondiam. Foi nesse momento que percebeu que...
-Uma mulher. Você é uma mulher!! 
- Desde que nasci, Me entregue as rotas. 
Santiago estava num misto de surpresa e medo: 
- M-m-mas quem é v-você? 
- Com toda a sua perspicácia ainda não percebeu vereador? Enquanto falava ajeitou o boné chamando a atenção do vereador para o desenho que estava nele deixando-o mais admirado do que antes: 
-Não! v-v-você  deveria estar...
Era uma noite de surpresas, e essa última encerrou ao mesmo tempo a noite e a vida do vereador. Dor no peito. Sangue. Sorriso e o boné. Cujo desenho ele jamais esquecera.Cujo desenho ele achava que jamais veria. Cujo desenho ele levará para o além-vida.
O desenho de uma Harpia.      

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Yin Yang- parte 2



- Mas porquê dentre todos justo você é o meu Gêmeo? Nem poderia imaginar que você teria um Gêmeo ou que teria uma forma... Sempre achei que trabalhava para você e não com você...
Com a expressão de quem estava se divertindo e ao mesmo tempo contemplando tudo,  Harmonia emanava algo que transcendia o tempo. Fábio não sabia dizer o que era, mas era familiar e era bom. Ele sabia que ela não era nova no que fazia e talvez não tenha sido substituída. Mais uma vez confuso - sentimento esse tão constante para ele- só pôde se conter e esperar as repostas. 
- Na verdade todos vocês trabalham comigo e para mim. E eu trabalho para vocês e com vocês. Nenhum de vocês está no status terrestre de empregado. Temos nossas funções e eu e você somos os mantenedores disso tudo. Você já deve ter percebido que apenas eu e você agimos em todo o universo. 
Fábio abriria uma gargalhada se não estivesse em tão grandiosa presença. Como não percebeu antes? Células não sofrem alteração do Destino ou Caos, Esperança e Desespero não conhecem metade dos planetas do universo, e muito menos um quarto das vidas residentes nesses planetas. Enquanto ele agora mesmo pode contabilizar tranquilamente todos os que agora mesmo estão deixando a vida, além dos que já se foram desde que o primeiro ser vivo gastou a última energia para se manter preso à existência. No entanto, guardou para si toda a diversão que a  situação proporcionava e concordou: 
- Verdade, nunca havia pensado a respeito. como eu disse, nunca entendi você como uma de nós, Sempre achei que você era maior. Na verdade, sempre achei que eu estava só até encontrar Caos e ele me disse que haviam outros e em pares. Mas nunca imaginei que justo você... 
- É justamente isso. Você não está só. Nenhum de nós está. E nem Caos tem plena noção disso. Todos nós estamos em pares e somos complementos uns dos outros. Sempre juntos. Destino coloca ordem nos desarranjos de Caos, Esperança dá aos seres aquilo que Desespero tira. Aparentemente um atrapalha o outro mas na verdade...
- Eles se ajudam, um sendo a completude do outro. Um terminando o que o outro começou. Tão simples e tão complexo... 
- São esses os conceitos que nos unem Fábio. Por isso o nome Gêmeo nos cai tão bem. Não somos exatamente iguais mas estamos próximos o tempo todo. Tamanha é a nossa abrangência que você nunca me percebeu claramente do seu lado mas eu sempre estava lá. Do menor ao maior ser do universo. Do centro até o infinito dele. Eu estava do seu lado e você do meu. Inclusive permita-me... 
E antes que Fábio percebesse, os seus lábios estavam colados aos de Harmonia e a aura antes familiar se revelou a presença que ele sempre notou. Sim, ela sempre esteve lá! Cada ser acompanhado pelo Guia possuía um pouco da energia de Harmonia. A cada morte sofrida, ela chorava ao lado do Guia e a cada alívio ela sorria como se tirasse dele toda a dor e o peso da responsabilidade de tal ato. Fábio não estaria lá se não fosse por Harmonia, ela estava lá do seu lado foi escolhido, e bem atrás dele quando conversou com Caos e Destino. Ele sempre sentiu que ela estava lá. Sempre soube e aquele beijo veio para trazer de forma mais viva o que ele já sabia: ele e Harmonia eram 1 só. Sempre foi assim e sempre será. Os Guias que o antecederam apenas prepararam o caminho para ele. Ela sempre o esperou, Sempre o chamou. Ela era o Alfa e Fábio o Ômega. Se foi um simples selinho ou um beijo que durou séculos não importa. Os lábios se separaram e ele apenas tinha uma última pergunta: 
-Por quê? 
-Um agradecimento por aceitar tão bem tudo. Por sentir o que todos nós sentimos pelo que fazemos e por chegar até mim. E por cada essência que você cuidou e cuidará tão bem. Inclusive, precisamos continuar o nosso trabalho. Vamos? 
Sem dizer nada Fábio assentiu e ao olhar para o lado Harmonia já havia desvanescido. Ele sorriu um sorriso calmo, sereno e grandioso, pois agora ele estava definitivamente completo. sem mais perguntas ou dúvidas. E ao contrário do que parecia, Harmonia não foi embora. Ainda estava lá com ele. Na verdade, sempre esteve. Aquele beijo sempre estará em seus lábios, vivo e constante. O universo é algo mínimo para o que eles podem alcançar. Cada essência era um presente vindo de Harmonia que ele guarda como o tesouro mais precioso. Ao olhar para o lado viu um garoto sentado no mesmo banco brincando com um tigre de brinquedo meio que sem notar a sua presença. Sentindo a familiaridade da energia percebeu que era o mesmo garoto que o convocou para a sua função e ainda sorrindo confirmou:
-Então é aqui que você está... 
 O menino não se abalou com suas palavras, nem as ouviu. Levantou e, com o tigre na mão correu para o colo da mãe que o chamava. Fábio deu uma última olhada para a rua em frente. A antiga rua de sua casa. Lembrou dele mesmo desnorteado correndo para casa sem saber o que esperar ou o que fazer...
Deixando a nostalgia e o passado para traz fechou os olhos e, sorrindo, se juntou à Harmonia.

   
              
Dedicado à: Mateus Soares e Rebeca Oliveira, Ângelo Riccel, Julyana Oliveira e Aderilson Oliveira, Kate Rayanny  !! 
Ao meu Yin, Dióne Neiva que foi peça central para escrever com tamanho sentimento essa série. 
Percebendo ou não vcs contribuíram muito!!!
E claro, a todos que lêem, gostam e sempre dão incentivos que continuemos!!!!   
Muito obrigado!!!! 
        
  

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Yin Yang



Sentado em um banco de Praça, o Guia sentia uma tranquilidade enquanto garantia o cumprimento da sua função. Com o tempo foi aprendendo como era fácil trabalhar e descansar ao mesmo tempo já que ele, como todos os outros, pode estar em vários lugares ao mesmo tempo. Ainda que cada serviço tenha a sua importância, o Guia tinha uma preferência em guardar alguns na memória. Nesse momento mantinha uma atenção especial no senhor que acreditava ser um pinguim em outra vida, na moça que acreditava que só virgens iam pro céu e se matou para conter seus impulsos sexuais, no habitante de um planeta do lado oposto ao da terra que se perdeu tentando achar o sentido da vida,  no garoto que fugiu de casa porquê queria se tornar herói, numa infinidade de células de uma zebra moribunda que lutavam para mantê-la vida sem sucesso... cada ser ia para o lugar onde melhor lhe cabia. O lugar que eles mesmos construíam em suas mentes, conscientes ou não. Mesmo não se envolvendo de forma emocional, Fábio se permitia simpatizar com essas e algumas outras histórias. Ele sentia que dessa forma, compreendia a consciência humana e enxergava cada história como única. Ele não gostava de medir tempo para as coisas, por isso, não fazia ideia se eram meses, anos ou séculos que aquele garoto estranho apareceu na sua casa falando estranhezas sobre morte. Mas o fato era que ele se sentia bem mais maduro à medida que foi conhecendo outros como ele. Porém, desde o encontro com Caos e Destino uma pergunta nunca saía da mente dele: "será que eu tenho um gêmeo? Nunca se preocupou em buscar ávidamente essa resposta. Ele sabia que viria. Ou não. E a moça que vinha em sua direção mostrava pra ele que esse dia era hoje. Alta, morena com um olhar sereno e ao mesmo tempo penetrante se aproximou e sentou-se ao seu lado:
- Demorei?
Não importa quanto tempo tenha de "vida" ou quantos encontrará, o Guia nunca sabia o que esperar daquele tipo de conversa, mas ele aprendeu muito ao longo do tempo e uma certeza ele já tinha:
- Não, você chegou exatamente no momento certo.
- Presumo que você já sabe quem eu sou.
- Meu Gêmeo. a minha dúvida agora é saber o seu nome.
- Sempre objetivo e afoito por respostas. sempre gostei disso em vocês Guias.É isso que torna vocês tão interessantes e tão necessários. Mas me diga, como você está? Digo, o seu tempo de Guia o que você acha de tudo isso?
Fábio percebeu que a mulher não respondeu a sua pergunta. Em vez disso o abordou com outra. Ironicamente ele, quando humano, odiava dar satisfações da sua vida, especialmente a estranhos. mas ela não é uma estranha. Levou um tempo para entender o "tudo isso" e não teve pressa em pensar na resposta pois sabia que poderia ficar mil anos e ela ainda estaria lá olhando para ele e esperando. Mas ele só precisou de alguns segundos:
- Ás vezes gostaria que os humanos pudessem saber de tudo. Do seu verdadeiro potencial, o universo tão grande e cheio de vida, civilizações com bilhões de anos à frente e outros começando agora enquanto eles desperdiçam suas energias com coisas tão frívolas. Só aqui na Terra a autodestruição é tão banal. A mesma espécie se mata apenas por serem de lugares diferentes, de opniões diferentes, e até por beijarem pessoas diferentes... e com a mesma energia que poderiam usar para criar tanto...
A moça olhava para ele com atenção e sorria um sorriso triste, entendendo as palavras e o pensamento de Fábio. Ele, por sua vez não sentia tristeza, só não compreendia, sempre em dúvida e questionando, E como Gêmeo, ela estava lá para responder:
- Você não é o primeiro nem o único com essa dúvida irmão, cada ser vivo tem suas características únicas e os humanos não são exceção. Você sabe além dos humanos apenas mais duas raças podem criar o lugar para onde vão depois de morrer. Se apenas os Klar podem nos ver, só os humanos possuem o sentimento conhecido como saudade. E você sabe a importância disso para eles mesmos e para a Harmonia. inclusive, prazer...
 -...Harmonia.

Dedicado à Angelo Riccell Piovischini e Dióne Neiva. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

Caos- Parte 2




-Você andou lendo muita história pra crianças, pequeno. -Caos ainda ria muito da pergunta de Fábio- Em outros tempos eu me sentiria ofendido por atribuirem meu trabalho a um ser inexistente. Mas aprendi a compreender os humanos e até me divertir com eles. Afinal, eu também era. 
Fábio ainda estava boquiaberto. Não imaginava que ainda pudesse ser surpreendido, a pequenez ainda tomava conta de si, e ao mesmo tempo, tudo era tão engraçado e tão irônico e  fazia um sentido louco, era mais que compreensível a explicação de Caos. E sabia que viria mais. 
- Certo, então tem outros...quem são? 
- Não dá pra falar de todos, não agora. Alguns se apresentarão no devido tempo, outros você nunca verá e nem mesmo ouvirá falar a respeito, mas vou te apresentar meu gêmeo...
- Ordem? 
- hahahahahaha não pequeno, realmente você realmente olha tudo já buscando respostas, tipico de Guias. Por acaso seu nome é "morte"?
Definitivamente Fábio se sentia uma criança na sala com uma professora dando aulas e fazendo chacotas ao mesmo tempo, mas a curiosidade por respostas era mais forte do que qualquer sensação que pudesse sentir, além do fato de que ele não podia deixar de concordar com Caos...
-Não, não é...
-É só questão de pensar com calma e de forma ampliada pequeno, você é novo nisso e por isso levará tempo. Ainda pensa como humano e isso afeta um pouco...
-De fato- Fábio lembrara que Caos estava numa maturidade a milênios da dele- mas me diga, onde está o seu irmão? 
-Irmão não. Gêmeo. É diferente, alguns de nós temos um gêmeo, que faz o oposto do que fazemos e ao mesmo tempo complementa o nosso trabalho e vice versa. Por exemplo, eu posso ser substituído e o meu gêmeo, assim, será gêmeo do meu substituto entende?  
-Hum... entendi sim, e cada vez que voc... a Sra fala entendo mais... e quem é o seu gêmeo? 
-Destino. E ele está bem atrás de você.
Destino deveria ser um ser imponente considerando que o papel dele era rearrumar as bagunças de Caos. Fábio imaginou um ser misterioso dentro de uma capa como ele costumava ler em seus gibis quando humano, para a sua surpresa ao se virar viu que Destino era apenas...
-Uma criança?
Aparentava ter entre 5 e 6 anos e levava na mão um lápis com borracha na ponta e um bloco de papel com marcas de rabiscos e gasto. Havia algo de autoritário em seus olhos. Apesar de infantil, a voz era carregada de conhecimento milenar: 
-Sim, sou uma criança e não, não sou uma criança, não mais, da mesma forma que você não é mais humano e nem Caos. Somos parte da Harmonia e fazemos nosso trabalho. Simples assim. E antes que você pergunte, eu escrevo o destino das pessoas aqui no bloco e Caos faz o favor de desviar-lhes da rota que tracei o que me obriga a apagar e escrever tudo de novo...
-Perdoe Destino, pequeno -Caos era puro doce até para interromper alguém- como meu oposto, ele é naturalmente diferente de mim inclusive no temperamento. Eu não desvio ninguém, ele sabe disso, apenas ofereço oportunidades que eles escolhem se aceitam ou não. Destino reescreve colocando em ordem a bagunça que as vidas se tornam até que eu...
-Bagunce novamente... Fábio tinha plena noção do que representava os seres à sua frente, via como apesar de Destino reclamar da sua função ele tinha consciência dela e executava com precisão. Caos não era ruim ao bagunçar a vida das pessoas e Destino não era tão bom ao traçar caminhos prontos para elas. ambos precisavam um do outro justamente para que nada se tornasse uma destruição mas também para que nada se tornasse um marasmo completo de regras estabelecias. Caos emanava uma bagunça serena na sua cabeça dificultando o entendimento e criando mais e mais perguntas enquanto Destino emanava uma rudeza objetiva que facilitava o pensamento. Não pôde deixar de observar isso nos dois. Destino e Caos eram definitivamente gêmeos. E só funcionavam juntos 
-Adorei conhecê-los nos encontraremos novamente? 
Destino se antecipou: 
-Nunca se sabe garoto, você viu as besteiras que Caos pode fazer e o meu trabalho em ajustar tudo. Nosso encontro pode ser inevitável ou impossível. Aliás vá logo porque você tem muitos pontos finais hoje.
o Guia sabia agora que, mesmo não os vendo pessoalmente, Destino e Caos trabalhavam com ele. Sabia que, de alguma forma a assinatura de um deles ou dos dois sempre estará em cada alma visitada. Longas despedidas eram desnecessárias, então mais um clarão e o Guia estava de volta ao trabalho.

Dedicado a Dione Neiva, Mateus Soares, Rebeca Oliveira, Julyana Oliveira e Kate Rayanny