Páginas

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Harpia- parte 4

 



A ansiedade é um sentimento louco. O cérebro avisa para o resto do corpo para um perigo iminete, uma situação ruim, uma atitude errada... O corpo obedece regras próprias deixando pouco espaço para a consciência. Marcelo nunca teve tanto contato com esse sentimento quanto nos últimos dias. E não é pra menos. Com pessoas próximas morrendo das mais diversas formas, é dificil ficar tranquilo. Cada ida ao trabalho, cada passeio (cada vez mais raro) ao parque era uma aventura da qual não tinha a mínima certeza se ia voltar. Seu psicólogo disse que pessoas morrem todos os dias. E pessoas ricas não escapam do inevitável infortunio. "Reconheço a coincidência" ele falou com uma tranquilidade tediosa e irritante. "Mas já passaram 6 meses Desde a morte de Fabiana. Não tem mais perigo. Se era assassino em série, deve ter desistido, conseguido o que queria ou morrido. De toda forma, você pode ficar traquilo e dormir em paz. Liberte-se do luto" 

Marcelo tinha vontade de gritar que não era luto porra nenhuma. Seja lá quem for, ainda estava por aí. E ele era o próximo. E a qualquer momento iria acontecer. E o desgraçado do psicologo não entendia nada. Já não fazia sentido aquela maldita hora semanal que ele pagava. Se era pra ouvir mentira e ladainha que fosse de alguma acompanhante. Pelo menos ela daria algum prazer enquanto mente. 

A respiração ofegante de Marcelo não aliviava mais ao sair do consultório. O coração parecia uma marreta batendo no peito. Sabia o que tinha que fazer: ir pra casa, tomar seu calmante torcendo pra não exagerar na dose, e dormir. dormir muito. Perdido em seus pensamentos e na sua batalha interna, mal notava quem entrava e saia ao longo dos 10 andares. Nunca prestava mesmo... Mas hoje, especialmente poderia entrar o Papa que ele não notaria. A voz calma e tranquila, quase que conhecida surgiu às suas costas como um toque suave nos tímpanos em meio a todo esse pesadelo: 

- Ansiedade? 

Não esperava por aquilo. Mas veio em boa hora. Lembrou que estava em um elevador e que precisava organizar os pensamentos. Precisava se controlar: 

-Sim. é uma merda isso. 

A voz, inalterada na entonação e numa firmeza feminina era um alento agradável cuja dona parecia saber o que estava fazendo. 

- Certeza que é. Água? 

-Aceito. Valeu. Me leva até o carro? 

- Claro. 

Bebendo a água com seus animos semialinhados, Marcelo sabia q teria que dar alguma coisa em agradecimento à boa samaritana. Odiava dever algo a alguém e não seria dessa vez que isso ia acontecer.  Mal tinha terminado de solver os 500ml de vez e a porta do elevador se abriu dando para o estacionamento. Saindo, ouviu os passos atrás de si da sua benfeitora misteriosa e resolveu entregar a garrafa enquanto à agradecia. Aliás... agradecer o que? uma fala mansa e uma garrafa de água? Percebeu que não precisava agradecer. Mas daria um agrado qualquer ou chamaria pra sair caso fosse bonita o suficiente. Ao se virar com sua habilidade automática de escanear o corpo feminino pegou uma combinação tosca de sobretudo e calça cargo preta, um all star surrado e uma blusa comprada em algum brechó qualquer. As mãos nos bolsos do sobretudo somada a uma postura ereta davam um ar que ratificavam a firmeza da voz. Ao subir o olhar, seus olhos se encontravam não com os de uma benfeitora, mas com os de alguém que estava pronta para um abate. O sorriso de alguém que já ganhou. O andar calmo de quem sabe o que faz. Reconheceria a harpia bordada no boné que ela usava, não fosse uma tontura súbita que tirou a sua percepção. Ainda com a mesma cortesia, ela o ajudou a ir até o carro. 

-Quem é você? - Marcelo tentou um último esforço mental e fisico. 

-O pássaro que vocês não queriam no ninho.        

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Medrosos, Racistas e Machistas


Uns anos atrás eu estava ministrando aula de teatro para crianças quando de repente aparece uma "tanajura" (biólogos, me digam o nome científico do bicho aê) que fez a turma entrar em alvoroço até que um aluno- o mais endiabrado, claro - tomou a dianteira e matou a famigerada de uma forma tão cruel quanto qualquer filme do Tarantino que já vi. 50 anos depois consegui colocar ordem no caos a tempo de ouvir um aluno dizer para a colega: " você é besta, tem medo de um bichinho daquele tamanho!" . Na mesma hora retruquei: "Ei, é normal ter medo das coisas. Aranhas são bichos pequenos e eu tenho medo delas. O mosquito da dengue é menos que meu dedo e eu morro de medo dele". 
É incrível a "educação" que estamos dando não só para as crianças, quanto para jovens, adultos, etc. Parece que demonstrar medo é, de alguma forma, nociva. em contextos de guerra, é um fato. Mas... não estamos em guerra. ou estamos? 
algumas semanas depois do fato, mais um assassinato brutal chamou a atenção da mídia. Uma militante feminista. Agora imagine você tirando uma vida de uma pessoa por não concordar com ela. Meu coração acelera só de pensar em pegar em uma arma de verdade. Sou um frouxo quando se fala em arma e dou graças a Deus em nunca ter servido ao exercito por isso. Mas sou capaz de subir em um palco e dizer um texto para uma plateia independente da quantidade, tem que ter muita coragem para tal atitude. Pra mim é muita coragem se colocar em tal situação. Como foi muita coragem o cara que matou Martin L King, o cara que atirou em Malcom X. Como ambos precisaram de coragem para defender publicamente ideias que iam de encontro à uma sociedade segregacionista e assassina. 
Eu sei que existem vários tipos de coragem e de medo mas sempre polarizamos essas coisas como quem tem coragem é bom e quem tem medo é ruim. Não vou explicar a patologia do medo nem as vantagens da coragem. Mas se é pra deixar uma mensagem deixo essa: Ter medo não é fraqueza e não te faz menor que ninguém. Ter coragem não é força e não te faz melhor que ninguém.     
      

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Sobre arroz, farofa e as coisas simples da vida.

 

 Fazer algo que você nunca fez na vida é a coisa mais estranha do mundo. Não mais estranho que acordar um belo dia e se tocar que você é a única pessoa do universo que não sabe fazer um "simples" arroz nem uma "simples" farofa. Incrível como as coisas simples parecem ter abismos de distância quando desconhecemos a maneira para alcançá-las. Esse foi meu pensamento quando abri o velho tutorial de internet pra aprender a fazer farofa. Sim, farofa.Imagine a minha cara quando vi que a duração do vídeo era de pouco mais de 3 min. Passei a infância, adolescência e boa parte da minha vida adulta travado em fazer algo de 3 minutinhos! Como não podia voltar no tempo, ignorei ( com muito esforço mental) o fato e lá fui eu de celular na mão e toda a disposição do mundo pra fazer algo que só precisava de: sal, manteiga, cebola e a farinha dãããã. Eu já havia tentado uma vez, mas o uso do instinto não favoreceu o resultado. Mas sim! O desafio foi cumprido com o resultado favorável com direito a repetição da experiência ( sem tutorial dessa vez) no dia seguinte. 
Farofa, ok! Mas e o arroz? Esse  sim era um verdadeiro desafio. Não havia tentativa prévia, nem nada prévio. Mesmas armas, mesma disposição, mesma cara quando vi o tempo do vídeo, mesmo procedimento, mesma finalização, certo? ERRADO! Descobri, que existe tipo de arroz (?!); tem que lave e quem não lave (e agora, José?); que é preciso ficar experimentando pra ver se está bom ( sério isso? É arroz, gente!!!); e outras coisas que já tava me sentido em um restaurante Japonês (peço perdão pelo vacilo no estereótipo). E isso tudo em um "simples" arroz? Como pode ser tão simples com tantos pormenores? 
Mais tarde, pensando no processo, visualizei quantas coisas simples são tão complexas: fazer farofa,  fazer arroz, falar em público, beijar, cantar, andar, fotografar, escrever, se relacionar... e boa parte dessas coisas nem tem tutorial. e as que tem, não dizem tudo. não falam que você tem que ter paciência, que pode errar, que tem que ter intuição e, principalmente, você tem que querer. 
O arroz? É... um pouco duro, um pouco sem sal, mas foi feito. Com direito a parabéns dado pelos amigos ("que orgulho!", "parabéns","já pode casar", "quem é você e o que fez com cleyton?"), e a maior cozinheira que conheço aprovou: Minha mãe! E isso é uma conquista no que se refere a mim e às minhas "habilidades" culinárias. 
O fato é que agora a farofa e o arroz deixaram de ser um mistério pra mim. Agora posso dizer que é simples fazê-los. A pergunta do momento é: Será que fazer feijão é simples?    

Por: Cleyton Vidal      

segunda-feira, 12 de março de 2018

Harpia-Parte 3


O final do show do Capital Inicial estava tumultuado. Na verdade, todo o show estava tumultuado. Fazia anos que a banda de Brasília não vinha na cidade e ninguém poderia perder essa oportunidade. Logo, era de se esperar uma casa lotada mesmo que em plena terça- feira. As últimas músicas já ditavam o tom de despedida da banda.
Fabiana estava em um misto de sentimentos, ainda estava stressada pelo início de semana caótica, queria espairecer um pouco e o show caiu como uma luva. Mas se sentia uma forasteira por não ver ninguém conhecido, visto que seus amigos de 40, 50 anos agora preferissem ficar em casa ou se limitar a barzinhos e cinemas onde tem lugares para sentar. Mesmo que o show tocasse músicas da sua época. Ao mesmo tempo, isso pouco importava, Fabiana estava em pleno êxtase,  claro que o efeito da cocaína no cérebro fazia toda a diferença. O incomodo de estar sendo observada por uma loira há uns 15 minutos já estava se transformando em curiosidade. Apenas encostada na parede, ela apenas observava Fabiana fixamente, sem nem disfarçar o interesse. De alguma Forma, parecia alguém distante, uma ex namorada, talvez. Estava alta demais pra lembrar. A plateia estava alucinada ao som de “À Sua Maneira”, mas para Fabiana- e talvez para a loira desconhecida- só havia elas duas ali. Fabiana se sentiu uma menina de 20 anos de novo e caprichava na dança, afinal, não podia perder essa oportunidade, não era todo dia que uma mulher mais nova demonstrava tanto interesse que não fosse para conseguir algum emprego ou alguma empregada “puxando o saco” querendo mantê-lo.
Num momento em que Fabiana girou o corpo, não se sabe se foi ela que estava lenta com a parte da música ou se a desconhecida tem algum poder de teleporte, mas o fato é que de repente estavam frente-a-frente. A loira apenas manteve um sorriso cativante e venenoso. Mas o que Fabiana não pôde deixar de reparar era em seu olhos. Tinha algo de firme neles. Algo desafiador, ameaçador, até. Apesar de novos, tinham muita história, e algo familiar. Ela já viu aquele olhar antes. Havia algo selvagem neles, algo como uma...
-Você! É Voc..
Um beijo dado pela loira interrompeu o raciocínio, a música ainda rolava, a multidão ainda agitada e Fabiana queria gritar, sair correndo. Mas seu corpo entorpecido não obedecia, já não estava obedecendo na verdade... O terror do momento foi se apagando com algo fino perfurando a área do rim e o mundo foi se apagando junto com o final da música.  

  

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Harpia- Parte 2


Primeiro veio a dor.
Dor nos pés.
Dor nas mãos.
Dor nos ombros.
Dor no pescoço.
Em seguida percebeu a escuridão que apertava seus olhos. O silêncio que apertava sua boca e a constatação que a gravidade estava contra o seu corpo. Não havia pés no chão, na verdade, não sabia quão distante estava do chão. Torcia para que essa distância não fosse grande pois, caso contrario, o legista terá serias dificuldades em arrumar seu crânio. Como se já não bastasse a incômoda sensação do sangue correndo forçadamente em direção à sua cabeça. ao tentar se mexer, uma voz suave e feminina rompe o silêncio: 
- Ah, finalmente acordou, Sra. Oliveira. Achei que ia ter que te sacudir. Dormiu bem? Deixe-me irar essa mordaça pra facilitar
Tentando manter a frieza e a calma de quem já conhecia esse tipo de situação devido a situação, Sra. Oliveira começa com o seu melhor argumento: 
- Olha, se é dinheiro, me deixe só ligar para o meu marido, ele é senador e me ama muito, mas...
Algo como um pedaço de madeira acerta sua perna e a Sra. Oliveira não pôde conter o grito e a sensação de pânico. Então ela se deu conta que não conhecia tão bem a situação. A voz feminina continuou: 
- Não foi o que eu perguntei querida. Perguntei se dormiu bem. É só a primeira pergunta de algumas que ainda farei. E já percebeu o que acontece quando não responde corretamente. Temos algum tempo antes que o sangue desça todo para a sua cabeça e você desmaie ou morra. Se responder bem eu te solto. Primeira pergunta: Reconhece esse boné? 
O primeiro impulso da Sra. Oliveira era pedir para que a venda fosse retirada. Mas, ao mesmo tempo que sentiu medo de ser agredida de novo, sentiu algo muito afiado e frio na sua orelha esquerda cortar a venda. tão logo esta caiu, e um boné estava à sua frente. Com um desenho único. Uma harpia feita por uma mão única. Talvez a coisa mais difícil da sua vida foi responder: 
- M-m-meu Deus... Você.. como você... 
Mais uma vez o pedaço de madeira na perna. E a resposta final veio com o grito:
-SIM! PELO AMOR DE DEUS!! SIM EU RECONHEÇO! 
-Ótimo. - a voz feminina respondeu- então já sabe que estou pouco me lixando pra quem está te bancando agora. Quero o otário anterior. Onde está Marcelo? 
- Marcelo? eu não...
A terceira madeirada veio com tanta força que balançou o corpo até então acostumado a massagens e cremes da Sra. Oliveira. As lágrimas de dor e desespero só serviram para aumentar a pressão crescente na cabeça. 
- Não me venha com essa de "não sei onde ele está". Vocês são unha e carne". Onde um está, o outro está perto. E sei também que devem se encontrar por aí. 
- Certo, eu digo!! - A Sra Oliveira estava já reunindo as ultimas forças pois a dor já era insuportável- O endereço está no meu celular. A última mensagem dele. Eu estava indo encontrá-lo quando não-sei-como você me trouxe pra cá, agora por favor me deixa ir... 
Um olhar esperançoso implorando por piedade lançou a Sra Oliveira à sua sequestradora que, sorrindo disse: 
-Não disse que prometia deixar ir. Te disse que prometia soltar. E é isso que vou fazer. 
Com a vista turvando, a Sra Oliveira pôde ver a faca que liberou a venda dos seus olhos cortar a corda que a prendia ao teto. Sua última visão foi ver esse mesmo teto se afastar rapidamente antes de voltar à escuridão.             

              
           

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Harpia- parte 1




A noite chuvosa ensopava o sobretudo que, mesmo sob a proteção do guarda-chuva oferecia o mínimo de proteção. Por sorte era uma das malditas chuvas de verão que eram eram comuns, quase que diárias em Dezembro. Mas não era a chuva que irritava o vereador, e sim a espera que consumia quase que 30 min de seu precioso tempo. Estava ansioso para voltar ao motel, se reunir com a sua secretária e só depois voltar para casa. Mas esse encontro era mais importante no momento. Importância tal que o fazia esperar longos  trinta minutos debaixo de uma maldita chuva que lhe instigava os piore sentimentos. Mas enfim ele chegou. Também de sobretudo e guarda chuva, vinha andando calmamente como se a chuva lhe trouxesse sensações agradáveis, contrariando ainda mais o vereador que só queria sair daquele inferno molhado. Estranhou por um momento que Júlio usava um boné com algum desenho estranho e óculos como que tentando disfarçar o rosto usando um disfarce clichê de filme policial. "Eu tinha que fazer negócio com principiante" pensou o vereador querendo ainda mais sair dessa situação antes incômoda, agora perigosa. Bastava uma foto tirada de algum celular para comprometer sua vida política e pessoal. Aliás a sua e de outros nobres colegas. Era a primeira vez que via Júlio pessoalmente sendo que até então usavam redes sociais para conversar o que deixou ainda mais forte o ar de estranheza do momento. Enquanto se aproximava, viu o quanto uma pessoa pode ser tão diferente quando comparada com uma foto. "Por isso que odeio essas porcarias. Mas dane-se quero acabar logo com isso. Cíntia deve estar impaciente no quarto e não quero ladainhas hoje". Os pés do vereador agora estavam como uva passa de tão molhados que estavam no sapato. Para essa ocasião havia pedido para Cíntia comprar um par de sapato descartáveis de camelô para poupar os usuais de trabalho. Ignorando esse fato foi andando ao encontro de Júlio com uma das magras mãos no guarda-chuva e o outro no bolso do sobretudo retirando um bolo de papéis envolto num plástico. Uma ultima olhada nervosa para certificar-se de que nenhum terceiro olhar estava por perto, o vereador inicia a conversa: 
- Júlio. 
-Vereador Santiago. 
Voz mansa e suave, diferente da que ele imaginava. Mas prosseguiu, quanto menos conversa, mais cedo terminava o negócio. Notou que Júlio também colocou a mão no bolso. Retirando os papéis adiantou: 
-  Aqui está. Todas as rotas e viagens lembrando que todos podem sofrer alterações. Cadê o dinheiro? 
Quando a mão de Júlio saiu do bolso, em vez do dinheiro uma Desert Eagle com silenciador. No rosto, um sorriso ao mesmo tempo tranquilo, prazeroso e... lindo. Júlio tinha um belo e fino rosto que os óculos e o boné escondiam. Foi nesse momento que percebeu que...
-Uma mulher. Você é uma mulher!! 
- Desde que nasci, Me entregue as rotas. 
Santiago estava num misto de surpresa e medo: 
- M-m-mas quem é v-você? 
- Com toda a sua perspicácia ainda não percebeu vereador? Enquanto falava ajeitou o boné chamando a atenção do vereador para o desenho que estava nele deixando-o mais admirado do que antes: 
-Não! v-v-você  deveria estar...
Era uma noite de surpresas, e essa última encerrou ao mesmo tempo a noite e a vida do vereador. Dor no peito. Sangue. Sorriso e o boné. Cujo desenho ele jamais esquecera.Cujo desenho ele achava que jamais veria. Cujo desenho ele levará para o além-vida.
O desenho de uma Harpia.      

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Yin Yang- parte 2



- Mas porquê dentre todos justo você é o meu Gêmeo? Nem poderia imaginar que você teria um Gêmeo ou que teria uma forma... Sempre achei que trabalhava para você e não com você...
Com a expressão de quem estava se divertindo e ao mesmo tempo contemplando tudo,  Harmonia emanava algo que transcendia o tempo. Fábio não sabia dizer o que era, mas era familiar e era bom. Ele sabia que ela não era nova no que fazia e talvez não tenha sido substituída. Mais uma vez confuso - sentimento esse tão constante para ele- só pôde se conter e esperar as repostas. 
- Na verdade todos vocês trabalham comigo e para mim. E eu trabalho para vocês e com vocês. Nenhum de vocês está no status terrestre de empregado. Temos nossas funções e eu e você somos os mantenedores disso tudo. Você já deve ter percebido que apenas eu e você agimos em todo o universo. 
Fábio abriria uma gargalhada se não estivesse em tão grandiosa presença. Como não percebeu antes? Células não sofrem alteração do Destino ou Caos, Esperança e Desespero não conhecem metade dos planetas do universo, e muito menos um quarto das vidas residentes nesses planetas. Enquanto ele agora mesmo pode contabilizar tranquilamente todos os que agora mesmo estão deixando a vida, além dos que já se foram desde que o primeiro ser vivo gastou a última energia para se manter preso à existência. No entanto, guardou para si toda a diversão que a  situação proporcionava e concordou: 
- Verdade, nunca havia pensado a respeito. como eu disse, nunca entendi você como uma de nós, Sempre achei que você era maior. Na verdade, sempre achei que eu estava só até encontrar Caos e ele me disse que haviam outros e em pares. Mas nunca imaginei que justo você... 
- É justamente isso. Você não está só. Nenhum de nós está. E nem Caos tem plena noção disso. Todos nós estamos em pares e somos complementos uns dos outros. Sempre juntos. Destino coloca ordem nos desarranjos de Caos, Esperança dá aos seres aquilo que Desespero tira. Aparentemente um atrapalha o outro mas na verdade...
- Eles se ajudam, um sendo a completude do outro. Um terminando o que o outro começou. Tão simples e tão complexo... 
- São esses os conceitos que nos unem Fábio. Por isso o nome Gêmeo nos cai tão bem. Não somos exatamente iguais mas estamos próximos o tempo todo. Tamanha é a nossa abrangência que você nunca me percebeu claramente do seu lado mas eu sempre estava lá. Do menor ao maior ser do universo. Do centro até o infinito dele. Eu estava do seu lado e você do meu. Inclusive permita-me... 
E antes que Fábio percebesse, os seus lábios estavam colados aos de Harmonia e a aura antes familiar se revelou a presença que ele sempre notou. Sim, ela sempre esteve lá! Cada ser acompanhado pelo Guia possuía um pouco da energia de Harmonia. A cada morte sofrida, ela chorava ao lado do Guia e a cada alívio ela sorria como se tirasse dele toda a dor e o peso da responsabilidade de tal ato. Fábio não estaria lá se não fosse por Harmonia, ela estava lá do seu lado foi escolhido, e bem atrás dele quando conversou com Caos e Destino. Ele sempre sentiu que ela estava lá. Sempre soube e aquele beijo veio para trazer de forma mais viva o que ele já sabia: ele e Harmonia eram 1 só. Sempre foi assim e sempre será. Os Guias que o antecederam apenas prepararam o caminho para ele. Ela sempre o esperou, Sempre o chamou. Ela era o Alfa e Fábio o Ômega. Se foi um simples selinho ou um beijo que durou séculos não importa. Os lábios se separaram e ele apenas tinha uma última pergunta: 
-Por quê? 
-Um agradecimento por aceitar tão bem tudo. Por sentir o que todos nós sentimos pelo que fazemos e por chegar até mim. E por cada essência que você cuidou e cuidará tão bem. Inclusive, precisamos continuar o nosso trabalho. Vamos? 
Sem dizer nada Fábio assentiu e ao olhar para o lado Harmonia já havia desvanescido. Ele sorriu um sorriso calmo, sereno e grandioso, pois agora ele estava definitivamente completo. sem mais perguntas ou dúvidas. E ao contrário do que parecia, Harmonia não foi embora. Ainda estava lá com ele. Na verdade, sempre esteve. Aquele beijo sempre estará em seus lábios, vivo e constante. O universo é algo mínimo para o que eles podem alcançar. Cada essência era um presente vindo de Harmonia que ele guarda como o tesouro mais precioso. Ao olhar para o lado viu um garoto sentado no mesmo banco brincando com um tigre de brinquedo meio que sem notar a sua presença. Sentindo a familiaridade da energia percebeu que era o mesmo garoto que o convocou para a sua função e ainda sorrindo confirmou:
-Então é aqui que você está... 
 O menino não se abalou com suas palavras, nem as ouviu. Levantou e, com o tigre na mão correu para o colo da mãe que o chamava. Fábio deu uma última olhada para a rua em frente. A antiga rua de sua casa. Lembrou dele mesmo desnorteado correndo para casa sem saber o que esperar ou o que fazer...
Deixando a nostalgia e o passado para traz fechou os olhos e, sorrindo, se juntou à Harmonia.

   
              
Dedicado à: Mateus Soares e Rebeca Oliveira, Ângelo Riccel, Julyana Oliveira e Aderilson Oliveira, Kate Rayanny e Dióne Neiva. 
Percebendo ou não vcs contribuíram muito!!!
E claro, a todos que lêem, gostam e sempre dão incentivos que continuemos!!!!   
Muito obrigado!!!! 
        
  

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Yin Yang



Sentado em um banco de Praça, o Guia sentia uma tranquilidade enquanto garantia o cumprimento da sua função. Com o tempo foi aprendendo como era fácil trabalhar e descansar ao mesmo tempo já que ele, como todos os outros, pode estar em vários lugares ao mesmo tempo. Ainda que cada serviço tenha a sua importância, o Guia tinha uma preferência em guardar alguns na memória. Nesse momento mantinha uma atenção especial no senhor que acreditava ser um pinguim em outra vida, na moça que acreditava que só virgens iam pro céu e se matou para conter seus impulsos sexuais, no habitante de um planeta do lado oposto ao da terra que se perdeu tentando achar o sentido da vida,  no garoto que fugiu de casa porquê queria se tornar herói, numa infinidade de células de uma zebra moribunda que lutavam para mantê-la vida sem sucesso... cada ser ia para o lugar onde melhor lhe cabia. O lugar que eles mesmos construíam em suas mentes, conscientes ou não. Mesmo não se envolvendo de forma emocional, Fábio se permitia simpatizar com essas e algumas outras histórias. Ele sentia que dessa forma, compreendia a consciência humana e enxergava cada história como única. Ele não gostava de medir tempo para as coisas, por isso, não fazia ideia se eram meses, anos ou séculos que aquele garoto estranho apareceu na sua casa falando estranhezas sobre morte. Mas o fato era que ele se sentia bem mais maduro à medida que foi conhecendo outros como ele. Porém, desde o encontro com Caos e Destino uma pergunta nunca saía da mente dele: "será que eu tenho um gêmeo? Nunca se preocupou em buscar ávidamente essa resposta. Ele sabia que viria. Ou não. E a moça que vinha em sua direção mostrava pra ele que esse dia era hoje. Alta, morena com um olhar sereno e ao mesmo tempo penetrante se aproximou e sentou-se ao seu lado:
- Demorei?
Não importa quanto tempo tenha de "vida" ou quantos encontrará, o Guia nunca sabia o que esperar daquele tipo de conversa, mas ele aprendeu muito ao longo do tempo e uma certeza ele já tinha:
- Não, você chegou exatamente no momento certo.
- Presumo que você já sabe quem eu sou.
- Meu Gêmeo. a minha dúvida agora é saber o seu nome.
- Sempre objetivo e afoito por respostas. sempre gostei disso em vocês Guias.É isso que torna vocês tão interessantes e tão necessários. Mas me diga, como você está? Digo, o seu tempo de Guia o que você acha de tudo isso?
Fábio percebeu que a mulher não respondeu a sua pergunta. Em vez disso o abordou com outra. Ironicamente ele, quando humano, odiava dar satisfações da sua vida, especialmente a estranhos. mas ela não é uma estranha. Levou um tempo para entender o "tudo isso" e não teve pressa em pensar na resposta pois sabia que poderia ficar mil anos e ela ainda estaria lá olhando para ele e esperando. Mas ele só precisou de alguns segundos:
- Ás vezes gostaria que os humanos pudessem saber de tudo. Do seu verdadeiro potencial, o universo tão grande e cheio de vida, civilizações com bilhões de anos à frente e outros começando agora enquanto eles desperdiçam suas energias com coisas tão frívolas. Só aqui na Terra a autodestruição é tão banal. A mesma espécie se mata apenas por serem de lugares diferentes, de opniões diferentes, e até por beijarem pessoas diferentes... e com a mesma energia que poderiam usar para criar tanto...
A moça olhava para ele com atenção e sorria um sorriso triste, entendendo as palavras e o pensamento de Fábio. Ele, por sua vez não sentia tristeza, só não compreendia, sempre em dúvida e questionando, E como Gêmeo, ela estava lá para responder:
- Você não é o primeiro nem o único com essa dúvida irmão, cada ser vivo tem suas características únicas e os humanos não são exceção. Você sabe além dos humanos apenas mais duas raças podem criar o lugar para onde vão depois de morrer. Se apenas os Klar podem nos ver, só os humanos possuem o sentimento conhecido como saudade. E você sabe a importância disso para eles mesmos e para a Harmonia. inclusive, prazer...
 -...Harmonia.

Dedicado à Angelo Riccell Piovischini e Dióne Neiva. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

Caos- Parte 2




-Você andou lendo muita história pra crianças, pequeno. -Caos ainda ria muito da pergunta de Fábio- Em outros tempos eu me sentiria ofendido por atribuirem meu trabalho a um ser inexistente. Mas aprendi a compreender os humanos e até me divertir com eles. Afinal, eu também era. 
Fábio ainda estava boquiaberto. Não imaginava que ainda pudesse ser surpreendido, a pequenez ainda tomava conta de si, e ao mesmo tempo, tudo era tão engraçado e tão irônico e  fazia um sentido louco, era mais que compreensível a explicação de Caos. E sabia que viria mais. 
- Certo, então tem outros...quem são? 
- Não dá pra falar de todos, não agora. Alguns se apresentarão no devido tempo, outros você nunca verá e nem mesmo ouvirá falar a respeito, mas vou te apresentar meu gêmeo...
- Ordem? 
- hahahahahaha não pequeno, realmente você realmente olha tudo já buscando respostas, tipico de Guias. Por acaso seu nome é "morte"?
Definitivamente Fábio se sentia uma criança na sala com uma professora dando aulas e fazendo chacotas ao mesmo tempo, mas a curiosidade por respostas era mais forte do que qualquer sensação que pudesse sentir, além do fato de que ele não podia deixar de concordar com Caos...
-Não, não é...
-É só questão de pensar com calma e de forma ampliada pequeno, você é novo nisso e por isso levará tempo. Ainda pensa como humano e isso afeta um pouco...
-De fato- Fábio lembrara que Caos estava numa maturidade a milênios da dele- mas me diga, onde está o seu irmão? 
-Irmão não. Gêmeo. É diferente, alguns de nós temos um gêmeo, que faz o oposto do que fazemos e ao mesmo tempo complementa o nosso trabalho e vice versa. Por exemplo, eu posso ser substituído e o meu gêmeo, assim, será gêmeo do meu substituto entende?  
-Hum... entendi sim, e cada vez que voc... a Sra fala entendo mais... e quem é o seu gêmeo? 
-Destino. E ele está bem atrás de você.
Destino deveria ser um ser imponente considerando que o papel dele era rearrumar as bagunças de Caos. Fábio imaginou um ser misterioso dentro de uma capa como ele costumava ler em seus gibis quando humano, para a sua surpresa ao se virar viu que Destino era apenas...
-Uma criança?
Aparentava ter entre 5 e 6 anos e levava na mão um lápis com borracha na ponta e um bloco de papel com marcas de rabiscos e gasto. Havia algo de autoritário em seus olhos. Apesar de infantil, a voz era carregada de conhecimento milenar: 
-Sim, sou uma criança e não, não sou uma criança, não mais, da mesma forma que você não é mais humano e nem Caos. Somos parte da Harmonia e fazemos nosso trabalho. Simples assim. E antes que você pergunte, eu escrevo o destino das pessoas aqui no bloco e Caos faz o favor de desviar-lhes da rota que tracei o que me obriga a apagar e escrever tudo de novo...
-Perdoe Destino, pequeno -Caos era puro doce até para interromper alguém- como meu oposto, ele é naturalmente diferente de mim inclusive no temperamento. Eu não desvio ninguém, ele sabe disso, apenas ofereço oportunidades que eles escolhem se aceitam ou não. Destino reescreve colocando em ordem a bagunça que as vidas se tornam até que eu...
-Bagunce novamente... Fábio tinha plena noção do que representava os seres à sua frente, via como apesar de Destino reclamar da sua função ele tinha consciência dela e executava com precisão. Caos não era ruim ao bagunçar a vida das pessoas e Destino não era tão bom ao traçar caminhos prontos para elas. ambos precisavam um do outro justamente para que nada se tornasse uma destruição mas também para que nada se tornasse um marasmo completo de regras estabelecias. Caos emanava uma bagunça serena na sua cabeça dificultando o entendimento e criando mais e mais perguntas enquanto Destino emanava uma rudeza objetiva que facilitava o pensamento. Não pôde deixar de observar isso nos dois. Destino e Caos eram definitivamente gêmeos. E só funcionavam juntos 
-Adorei conhecê-los nos encontraremos novamente? 
Destino se antecipou: 
-Nunca se sabe garoto, você viu as besteiras que Caos pode fazer e o meu trabalho em ajustar tudo. Nosso encontro pode ser inevitável ou impossível. Aliás vá logo porque você tem muitos pontos finais hoje.
o Guia sabia agora que, mesmo não os vendo pessoalmente, Destino e Caos trabalhavam com ele. Sabia que, de alguma forma a assinatura de um deles ou dos dois sempre estará em cada alma visitada. Longas despedidas eram desnecessárias, então mais um clarão e o Guia estava de volta ao trabalho.

Dedicado a Dione Neiva, Mateus Soares, Rebeca Oliveira, Julyana Oliveira e Kate Rayanny
                

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Criar. Contar. Mostrar. parte 3


Paradise
Esse texto conta a história de uma moça viajante cujo nome é Sol. Ela é uma hippie cheia de boas vibes. Toda suave de dreads longos e loiros, pele branca com muitas tatuagens. Para cada tatuagem um significado, a maioria delas simbolizam a liberdade, como a árvore de galhos secos com pássaros em sua perna. 
Morava em uma ilha formada somente de hippies onde todos se conheciam. Um lugar lindo onde só vibram o amor e a paz. Mas Sol, sempre determinada em suas ações colocou em sua mente que que queria sair e andar sem direção, sem destino. Queria conhecer pessoas novas, sentir uma nova vibe e ver o mundo como ele é fora da sua aldeia. Então ela saiu e os caminhos por onde por onde passava encontrou de tudo: gente diferente, lugares impressionantes, vistas lindas, paisagens e outras coisas. Admirada com tudo que estava conhecendo e cada momento surgia a vontade de conhecer mais e mais. Sol viu de tudo um pouco: do candomblé ao cristianismo  e todas as religiões possíveis. Viu tudo o que tinha que ver e conhecer com apenas 20 anos de idade. No caminho da sua viagem sem fim conheceu um rapaz soteropolitano que logo se apaixonou pelo jeito  lindo e meigo da moça e assim resolveu seguir viagem com ela. era tudo que ela queria para a sua vida, Sol então estava se sentindo realizada com tantas coisas boas em sua vida! quando uma inesperada surpresa estraga sua linda vida. Após ter voltado de um passeio encontra o seu amor jogado no canto do quarto morto. Triste, ela se desespera e sem pensar se mata, pois o amor que sentia pelo rapaz era tamanha que sol não suportaria mais viver só 

domingo, 26 de outubro de 2014

Criar, Contar, Mostrar. Parte 2


Beka
Beka, 16 anos, 1,65 de altura, cabelos loiros e curtos, olhos escuros e um sorriso conquistador. Uma garota diferente de todas as outras ao contrario de muitas e sempre determinada. O seu maior sonho é viajar pelo mundo, muito aventureira e sempre buscando coisas novas.
Mas algo lhe impedia de prosseguir com seu sonho: a descoberta de um câncer em um dos seus pulmões que a impede de realizar seus desejos, mas com sua determinação todas as barreiras vão ser quebradas. A vontade de alcançar seus objetivos é maior que a sua doença. 

...

Enfim, a história continua, a descoberta da sua doença não abalou Beka em nada. Os sonhos continuaram e ela conheceu um jovem que por sinal adora aventuras como ela. Como sua doença ainda estava na fase de descoberta, a garota com a ajuda de seus pais e do seu amigo decidiu sair pelo mundo afora afim de realizar seus desejos antes que a doença tomasse suas forças. ela chegou ao seu primeiro destino onde presenciou sua primeira aventura e nisso Beka foi viajando, viajando e com o passar do tempo a doença foi agravando e ela já não tinha mais forças para prosseguir. Mas uma coisa alegrava seu coração e a fazia esquecer os problemas: era saber que alcançou suas metas ao lado das pessoas que ela amava e em pouco tempo o maldito câncer levou a vida da jovem sonhadora, mas entre tudo isso é bom lembrar que o câncer não conseguiu tirar dela a vontade, a determinação e a conquista de seus objetivos. 

por: Jamille, Tamara, Rebeca, Rafaela e Leonardo

sábado, 25 de outubro de 2014

Projeto Criar, Contar, Mostrar. parte 1- Joãozinho


Salve galera!! Como todos sabem a não ser que esteja descobrindo isso agora sou estudante de Letras com Inglês cujo fim está próximo e me proporcionou ótimas experiencias. Uma delas gerou o que estou compartilhando agora. É o projeto Criar, Contar, Mostrar feito sob a coordenação da Profa Nadja Maciel no colégio Juiz Jorge Faria Góes com a junção de turmas do 3° ano. A galera escreveu contos e posteriormente criaram peças teatrais. Aqui estarei dividindo com vocês as criações deles e pra começar...


Joãozinho
Joãozinho estava passeando na rua. Logo ele encontra um rapaz que pergunta que horas são. Ele responde: "16:20". O rapaz começa a falar com ele e conversa vai, conversa vem, a hora vai passando...  Depois dessa longa conversa se tornaram grandes amigos. No dia seguinte eles começaram a se encontrar para para ir às baladas. O amigo pediu um tempo a joãozinho. Com o passar do tempo, ele descobre que o amigo era um tremendo traficante e no dia seguinte percebeu que a sua vida está sendo ameaçada. Começou a ser perseguido por pessoas que não conhecia. No dia seguinte, ao chegar no portão foi surpreendido por dois elementos em uma moto, desceram e efetuaram vários disparos. Joãozinho tomou um susto e percebeu que tudo não passou de um sonho.
Por: Thailany, Juilson, Camila, jocineide e Crislaine.          

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Momento Propaganda: A CIDADE DA RUA DIREITA


Salve galera!!! Teatro à vista !! É o Grupo Cordel pelamor de Deus se você é de Feira de Santana e não conhece vai tomar surra! que está em sua terceira temporada com o espetáculo A Cidade da Rua Direita.
O enredo, que mistura ficção e realidade, se dá a partir da chegada de um homem misterioso que vem à cidade resgatar o seu direito sobre as terras da Rua Direita. em Seu caminho ele se depara com figuras e locais da antiga Feira de Santana dos anos 30, que o texto retrata com a função de homenagear e perpetuar a memória da cidade que foi carinhosamente chamada por Ruy Barbosa de "A princesa do Sertão"
O espetáculo acontece lá no Amélio Amorim nos dias 17 e 18 de outubro às 20h. O ingresso é R$ 24,00 inteira e R$12,00 a meia. Takaro é o japonês que mora lá na esquina .
Então compareçam galera. é História, é comédia, é cultura.
P.S. Sim, na ft sou eu mesmo! ;)




terça-feira, 7 de outubro de 2014

Caos- parte 1



-Acho que agora posso ir em paz... Obrigado por tudo tá? 
- Não há de quê. Que bom que está em paz. Vá tranquilo, nos veremos por aí.
E mais um trabalho cumprido pelo guia. Algum tempo se passou desde o primeiro contato, mas ele não se esquece de nenhuma pessoa, independente das ações feitas em vida, más ou boas. Às vezes ainda lembrava daquele Fábio cujo nome ele ainda pedia pra que o chamassem quando sentia algum afeto pela alma guiada, mas já não havia essa separação, não que o afeto tenha diminuído. Pelo contrário, cada alma era nobre, tinha a sua virtude e o Guia reconhecia a todos, pois não cabia a ele julgar nenhuma. Claro que algumas davam trabalho, mas faz parte "cada um tem seu tempo", ele sempre repetia para si. Resolveu andar um pouco, faz muito tempo que ele não desfrutava desse ato, já que estava em vários lugares ao mesmo tempo, o que  tornava andar ainda mais prazeroso. Após alguns minutos foi tomado de uma surpresa quando uma voz atrás de si o chamou:  
-Olá moço, você deve ser o Guia não é? 
Ao mesmo tempo inacreditável e intrigante, alguém o estava enxergando, mas logo era perceptível que já não era desse mundo, não por ter uma aparência idosa e um tanto cansada mas o Guia, com o tempo reconhecia tranquilamente a aura de quem não era desse mundo. Seria uma alma esquecida ou que voltou? Apenas com uma pergunta  essa duvida seria esclarecida:
-Quem é você? 
A Sra, não podia disfarçar um misto de tristeza e soberania:
- Credo, eu esperava mais do Guia, ouvi dizer que você faz um ótimo trabalho, mas já vi que respeito e conhecimento não são seus pontos fortes. Sou um colega seu meu caro, na verdade praticamente trabalhamos juntos. E separados também. 
- Juntos? Mas nunca te vi antes...  
- Todos nós trabalhamos juntos pequeno, cada um na sua jurisdição fazendo o que lhe cabe, mas no fim todos nós trabalhamos pra uma única garantia...  
-Harmonia.- O Guia por algum tempo se sentiu Fábio novamente. Nunca pensou a respeito de outros como ele e agora estava intrigado por saber de tudo ao mesmo tempo com a tipica curiosidade juvenil. Claro que agora ele tinha a benção da experiencia e sabia que todas as respostas viriam a seu momento:
 -Por favor, continue.
A Sra sempre paciente e com um sorriso característico de uma avó contando história para um neto curioso continuou..
-Pra você entender melhor recomendo que me siga, eu sei que você tem tempo sobrando agora. 
Fábio conhecia a sensação, afinal ele mesmo viaja o tempo todo assim, primeiro o escuro e depois o clarão,  da primeira vez que viajou assim demorou uns segundos, agora é tão rápido que chega a ser imperceptível. Logo eles já estão em outro destino. Ele ainda quieto apenas ouvia a Sra falando:
- Está  vendo aquela garota? 
- A que está sentada? 
-É. e ta vendo o rapaz lá adiante atravessando a rua? 
-Sim.
- Acha que eles dariam um bom par? 
- Não, são muito diferentes. Ela é mais jovial, esportiva. Ele é formal pra caramba, com aquele terno e maleta, provavelmente um executivo ou algo assim.  
- E se eu dissesse que eles amam Metallica? 
- Eu diria que nenhum dos dois aparentam isso.
- E se eu dissesse que eles estão indo pro mesmo lugar? 
-Agora estou bem curioso. Que lugar?  
-Vão se matricular no mesmo curso de inglês e vão se reconhecer lá. 
- Mas são tão difer... você não quis dizer conhecer?
-Não. Eu quis dizer reconhecer mesmo. Eles tem os mesmos gostos, já estiveram nos mesmos ambientes, até alguns amigos tem em comum. Só que nunca se notaram. Você sabia que eles adoram comer pipoca com chocolate em pó e leite condensado por cima?
- hahahahahah. Isso é realmente hilário. Nunca diria isso... mas como você... a Sra sabe dessas coisas? 
-Eu vejo as almas garoto, você também vê, mas apenas superficialmente e momentaneamente. Eu os vejo no sentido mais amplo, vejo todos e o tempo inteiro sei do que gostam, seus medos e... vamos chegando até ela, me acompanhe por favor.. suas vontades e até seu segredos. E esse é meu instrumento de trabalho.
 Fabio meio que já sabia quem era ela e queria fazer uma pergunta, mas sabia que não era hora, então apenas ouvia e observava ela pegar um papel qualquer no chão e, usando da direção do vento, fazer o papel ir de encontro ao rosto da garota que ao olhá-lo, expressou surpresa, depois dúvida, e um tempo depois verificou a bolsa levantou e saiu correndo na mesma direção que o rapaz formal foi.
-O que a Sra fez?- Fábio dessa vez estava realmente intrigado.
- Mostrei uma oportunidade a ela. O papel era um panfleto promocional de um curso de inglês que ela sonhava em fazer mas que não sabia que estava em período de matricula. Provavelmente verificou documentos e dinheiro para matricular-se. Apenas mostrei uma oportunidade e ela aceitou. 
- Como a Sra sabia que ela ia...?
-Essa é a graça. Não sabia. Como eu disse, Mostrei a oportunidade, ela abraçou e foi. Não é divertido?
-hahahaha. Demais, Nunca ia imaginar que algo assim tivesse alguém pra organizar tudo...
-Quem falou em organizar? Justamente o contrário garoto, eles estavam em plena organização de suas vidas, ela acabou de se estabilizar na faculdade e ele é gerente da empresa que trabalha. Ambos quando se reconhecerem tomarão o maior choque de suas vidas. Vão enlouquecer, morrer de ciumes, tentar entender, e ver o mundo deles virar de ponta cabeça. Em outras palavras, eu trouxe a bagunça na vida deles. hahahahah
- Mas por que? 
-Porquê é isso que eu faço, é isso que o sentimento faz, tira as pessoas do comodismo e coloca elas numa posição que as obriga a ver a vida de outra forma. Como você e Lu.
Fábio só pôde sorrir e concordar. Sua pergunta foi respondida sem que ele precisasse abrir a boca. Claro que aquela Sra simpática estava por traz da história louca deles. E mais uma vez ele pôde ver tudo e viu como ainda era pequeno diante de tanta coisa grandiosa da qual ele fazia parte e percebeu que ainda tinha muito o que aprender e muito que fazer. Sorrindo, só pôde constatar:
-Então a Sra é o cupido...
A Sra irrompeu uma gargalhada que o deixou desnorteado por segundos
- Aí é que você se engana garoto, eu sou o Caos. 

continua...

Dedicado aos meus queridíssimos Mateus soares, Dione Neiva, Julyana oliveira e Bruna Santos.

       

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ukufa Parte 3



Luana quase morre de susto.
- FÁBIO???!!! O-o que você está fazendo aqui? Como chegou aí em cima?

-Vim te visitar, papear um pouco e te contar uma coisa.
- Me visitar? Então você sabe que lugar é esse? É estranho, simplesmente acordei aqui e achei tudo muito...
-...Tranquilo?
-É... como você sabe? E o que é que você tem pra me contar?
Fábio escutara tudo com um sorriso no rosto achando graça e surpresa ao mesmo tempo. A primeira coisa que percebeu foi a presença da macieira. Não poderia começar melhor. Por isso fez sua chegada em seus galhos. Sua garota e uma macieira. Tudo que ele que ele queria. Mas Luana estava ali e precisava de atenção: 
-Uma pergunta por vez Lu. Vamos com calma.
- Você pedindo calma? quando foi que você virou uma pessoa calma?  
-Engraçado né? Tive um amigo que deu uma força nesse sentido... mas vamos lá Lu, pra começo de conversa você não está mais no mundo que você vivia. Estamos em outro lugar e bem longe. Como eu disse vim pra te visitar e papear um pouco. Me responde uma coisa: você curte macieiras né?
- Cara, eu gosto demais. Você nunca reparou na cesta que fica na mesa da cozinha? Vivia cheia de maçã da roça do meu avô...  e tipo veio a calhar essa macieira, assim que vi simplesmente me deu vontade de sentar aqui. como se meu avô estivesse aqui sabe...
Enquanto Luana falava, Fábio sente um certo arrependimento por não observar certos detalhes importantes pra ela. Não fazia nem ideia da existência de tal cesta na casa dela. sempre que almoçavam na casa dela, ele se concentrava em impressionar os pais dela e sair dali. agora, uma simples cesta é deveras importante pra ela ao mesmo tempo que é simplesmente insignificante pra ele.
-Desculpa Lu, nunca percebi nunca percebi. Mas devo lhe dizer que foi você quem colocou essa macieira aqui...
- Eu? Não me lembro de ter feito isso. Não lembro nem como vim parar aqui...
-Faz parte do Processo Lu. Tem muitas formas de acontecer. Cada pessoa é um caso diferente. Sua mente construiu um lugar só pra você enquanto transitava pra cá. Sei que quer saber onde é "aqui". Essa é a sua nova casa. Inclusive está incompleta ainda.
- O quê? Casa? eu quero ir pra MINHA casa Fábio!!! Seja lá que lugar for esse, se eu construí ou não tanto faz!!
- Lu, lembra que falei sobre estarmos em outro mundo? Agora que seu espirito se acostumou sua mente agora precisa aceitar. Você não pode voltar porquê não há mais vida no seu corpo. 
- Então é verdade. Eu... morri... Por isso que foi tudo tão "do nada"... meu primeiro pensamento era me perguntar se estava no céu... aqui é o céu Fábio? E porquê você apareceu? Você é real?
- hahhahahahaha Sim Lu, eu sou real. antes de você, eu morri mas eu tenho a função de guiar as pessoas. pra você ter uma ideia eu estou  nesse exato momento com mais 215 mulheres e 318 homens com a sua idade só aqui no Brasil. Sem contar todos os outros. É divertido e triste ao mesmo. Uns aceitam de bom grado, outros se negam, alguns ainda se apegam de tal forma que tentam possuir outros corpos. É horrível Lu. mas tem os que recebem como um alívio e felicidade.
-Nossa eu nem sabia que você tinha... como foi? e tipo, eu vou ficar aqui pra sempre? e só?
-Acidente de carro eu acho, mas isso não tem importância mais. Essas decisões é você quem vai tomar. mas no fim das contas será como você deseja. No fim do Processo você estará feliz e tranquila. Se aqui é o Céu é uma dessas escolhas.Você ficará bem Lu. Você não estará sozinha. A não ser que você queira. Aqui é sua casa. Agora preciso deixá-la. Antes um comentário: sabia que também sou louco por macieira?
Luana ia esboçar uma resposta mas tão rápido como chegou Fábio se foi. Ela queria se despedir, falar do relacionamento desgastado deles e que apesar de tudo sentia saudades. Mas por outro lado sabia que não era o mesmo Fábio, pelo menos não completamente. Algo de Fábio se perdeu na sua nova função. Ia pensar muito sobre isso mas agora queria arrumar sua nova "casa" já que aceitou tão bem sua nova condição. Ao se virar de costas tão surpresa quanto admirada só pôde rir e apreciar o mar de macieiras que agora se encontrava na sua frente. 
Pegou uma maçã e deitou na grama fechando os olhos. 

-Cleyton Vidal

E Com Vocês...



Estávamos sentados à mesa do jantar comendo as batatas que sua mãe à pouco cozinhara, olhar para ele ali em minha frente dizendo coisas que pouco me importavam era estanho, sempre fiz isso, mas desta vez soava como um egoísmo forçado de minha parte. Nada era igual há sete anos, ele parecia mais jovem e carregava em si uma energia invejável, enquanto eu apresentava o semblante cansado de uma velha esclerosada, mas não era um cansaço físico, era algo mental, como se minha mente não processasse mais tudo aquilo que ele dizia. Eu só precisava olhar, observar seus lábios mexendo ritmados enquanto seus olhos arregalados acompanhavam o compasso de sua cabeça que subia e descia numa forma de código para saber se eu estava entendendo ou não. Minha cabeça respondia que sim. Porém por dentro eu só conseguia pensar cala-a-boca-seu-cretino. Por muitas vezes pensei comigo mesmo enquanto ele fazia seu interminável monólogo sorte-sua-que-eu-te-amo, e talvez seja sorte mesmo, uma sorte filha da puta que eu saiba de tantas falhas e ainda continue me deitando com ele todas as noites, que eu ainda ouça coisas que para mim não fazem o menor sentido, mas continue concordando com a cabeça para ver aquele sorriso de satisfação enquanto só quero que se cale. O jantar meio improvisado demorou de chegar ao fim. Enfim colocamos os pratos sobre a pia, eu sabia exatamente onde aquilo iria acabar, ou melhor, não iria, nada acaba quando se trata de nós, fica tudo pairando como uma interrogação solta num papel A4, sentei-me na cama cruzando as perna estilo indiozinho enquanto ele trocava de roupa para dormir. Esperei que parasse em minha frente já de pau duro e me pedisse para chupá-lo, não o fez, fiquei olhando com a cabeça baixa e os olhos virados para cima, código perfeito para dizer quero-te-chupar sem ter que dizer quero-te-chupar. Fico feliz quando ele entende sem precisar dizer, apenas vem, coloca o pau em minha boca, e deixa com que eu faça o resto. Eu poderia chupá-lo a noite inteira, talvez meu egoísmo termine aí, talvez seja aí que eu demonstre meu perdão, o silêncio que paira sobre esse momento de entrega unilateral seja o meu perdão, eu preciso disto, da sua fala hipócrita dizendo que me ama depois de receber um belo boquete, das suas mãos envolvendo-me por completo enquanto dormimos. A noite carrega a angústia de tê-lo de volta, eu poderia ter deixado ir, meu egoísmo me assusta, eu o trouxe de volta e o prendi num mundo no qual ele não cabe mais. Um mundo que não cabe nós dois, que não cabe as suas falas exageradas, mas eu o trouxe. Agora carrego a responsabilidade de ter que perdoar, de ouvir o que não quero ouvir, de sibilar que entendo quando não entendo nada, de amar, de fazer com que não vá outra vez. Talvez eu seja recompensada por isso com mentiras que preciso escutar ou talvez nunca seja, e eu acorde deste engano antes que ele desperte pela manhã muito cedo, e me acorde com um beijo, fazendo que eu mais uma vez desista de tudo e apenas fique.

Ilana Maia


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

E com vocês...



As horas passavam de forma arrastada, o caminhar dos dias ainda não havia se acostumado à sua falta, o cheiro de sua pele permacera em meus cabelos por longos dias mesmo depois de lavados, seu toque, seu jeito de segurar-me os ombros numa tentativa de manter-se sempre perto, mesmo que isto fosse algo perigoso demais. A fala mansa de quem não tem pressa nenhuma de que o dia termine, então ele fazia que os dias fossem intermináveis, sua pele sempre quente em meio ao frio londrino e os beijos roubados às escondidas. Agora o relógio conta os minutos da sua ausência, os ponteiros fazem-me voltar no tempo e ver seu sorriso confidenciando coisas, enquanto falava sibilando suas metáforas eu me imaginava mergulhando em sua face.


O trem não demorava a chegar, a estação lotada dava ainda mais a sensação de nostalgia que a cena exigia, havíamos voltado para o nosso lugar, de onde fugimos durante muito tempo, agora que seu abraço me cabia perfeitamente, me bastava, tivemos que partir. Conforme a chegada do trem se aproximava e as malas pesavam mais do que o normal, pois agora carregavam alguma coisa a mais ali, algo que não me pertencia, percebi que ter olhado as fronteiras do mundo de outra forma fizeram a angústia parecer mais amena. Mas o peso da saudade ficou, saudade das palavras não ditas, das memórias um tanto confusas, daquilo que não houve. Subi no trem, carregando as malas e na cabeça algumas interrogações, esperando o “até logo” que não existiu.

-Ilana Benne

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Preto


Preto não é a minha cor, preto é minha identidade, é meu reflexo no espelho.
Preto tá no meu sorriso, no meu olhar, na minha luta diária.
preto não é preconceito, não é ofensa, é meu orgulho.
pode me chamar de preto, preto não é meu apelido, é meu nome.

-Cleyton Vidal

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

E com Vocês...

O Voo


Sentada na poltrona 419, fitando outros aviões através da janela, Lisa Thompson se questionava o porquê daquele número uma vez que o avião era ligeiramente pequeno.
Na verdade havia muitas coisas estranhas naquele avião, como a estrutura das poltronas, por exemplo, que ao invés de serem organizadas em trios eram organizadas em duplas. A pequena TV da poltrona da frente não ligava para que ela pudesse usufruir dos programas de entretenimento e música. O tamanho do avião era estranho também, pois exteriormente era do tamanho de um Boeing, mas o interior se assemelhava a um pequeno avião particular.
Assim que alguma comissária de bordo se apresentasse, ela procuraria suas respostas.
− Lisa?
Ela virou o pescoço para ver o corredor;
− Henry! Que bom vê-lo! – saudou ela ao ver seu ex-colega de trabalho.
Ela saíra de seu antigo emprego há dois meses e ele ainda trabalhava lá. Tinham uma relação formidável no trabalho.
− Como você está? − Perguntou ele sentando-se ao seu lado.
− Estou ótima! Você vai viajar aí?
 − Sim! Minha poltrona é a 420.
            Antes que Lisa pudesse comentar a estranheza com relação aos números das poltronas, o avião deu a partida. Ele correu pela pista e levantou voo. O nariz erguido pra cima, pronto para rasgar os céus.
− Henry...
− O que foi?
− Estou com medo.
Henry segurou sua mão. Por uma fração de segundo, Lisa sentiu seu coração bater como nos tempos em que trabalhavam juntos, mas reprimiu os sentimentos novamente ao ver na mão dele a aliança dourada. Nunca conhecera a mulher dele, nem mesmo sabia seu nome, mas Lisa sabia que ele era casado.
− Tem medo de voar?
− Não, não é isso. É que nenhuma comissária passou por nós pra conferir os cintos e tudo o mais, não vieram às orientações formais sobre segurança, o piloto não falou conosco... Tem alguma coisa errada.
− Sinceramente, acho um saco aquela vozinha robótica dando essas instruções. Nem me faz falta.
− Mesmo assim Henry...
− Lisa, relaxa! Daqui a pouco nós chegamos, o importante é que estamos bem e...
− FOGO!!!!
          Henry se calou, Lisa se pôs de pé, mas caiu sentada com uma guinada que o avião deu.
O berro viera do meio do corredor no polo oposto. Um passageiro dizia ver fogo na asa do avião e o pânico se espalhava por quem constatava tal informação.
Henry estava pálido e em choque, Lisa chorava mas não gritava, somente pedia a Deus que não a deixasse morrer.
O avião começou a perder altitude.
− Todo mundo calado! – berrou alguém que estava em pé no corredor do avião.
Lisa se aprumou em sua poltrona e viu que o homem tinha uma arma em sua mão.
− Se vocês ficarem em pânico não vai adiantar nada! Berrou o homem que segurava a arma. 
Henry estava chorando agora. Em desespero.
Lisa se perguntava como aquele homem entrara no avião armado, a segurança nos aeroportos era extrema e ele certamente passara pelo detector de metais antes de entrar no avião.
Mas Lisa não se lembrava de ter passado pelo detector de metais. Na verdade ela nem se lembrava de ter feito o check-in e nem de pra onde estava indo. Não lembrava-se nem mesmo de onde estava vindo.
− Henry... Henry olha pra mim!
− Eu não quero morrer Lisa! Eu não quero morrer! Minha mulher... ela está grávida, Lisa! A Christine vai ter um bebê! Eu não quero morrer! – as lágrimas lavavam seu rosto.
O nariz do avião inclinou-se para baixo... era uma questão de instantes para colidir com o solo.
− Henry, por favor! Me responda: Para onde este avião estava indo?
− Para Londres, Lisa! Eu não posso morrer!
− Henry! Por favor, olha pra mim! Isso não é real! Estamos sonhando! Quando esse avião colidir com o chão, vamos acordar em nossas camas, entendeu?
Henry fitava Lisa atônito. Que loucura era aquela?
Lisa não via outra explicação. Aquilo tudo não fazia sentido. Não podia ser real. Nada naquele avião fazia sentido algum.
− Que loucura é essa Lisa?
− Me diga: Você se lembra de ter feito o check-in? De ter passado do aeroporto pra cá?
− Sim! Eu me lembro! A atendente do balcão inclusive era de aparência oriental... eu passei por uma livraria também antes de embarcar...
De repente a teoria que Lisa havia concluído perdera o sentido. O avião mergulhou com tudo rumo ao chão e o desespero de Lisa aumentou. Iria morrer, as pessoas naquele voo não estavam sonhando. Mas... e se somente ela estivesse?
        Então houve fogo. O rosto de Henry desesperado foi a ultima visão de Lisa antes de eles serem consumidos pelas chamas.
         
             Lisa acordou.
          O relógio digital da mesa de cabeceira da sua cama indicava que eram 4:19 da manhã. Estava muito suada e a respiração era ofegante. Agradeceu a Deus por ser apenas um sonho. Por estar em terra firme, por estar sã e salva em Nova Jersey.
Pegou seu celular, tinha o número de Henry e discou. Estava tão impressionada que não se importou com o horário.
− Alô? – atendeu uma mulher.
− Christine...? – arriscou Lisa.
− Sim, e você, quem é?
− Sou Lisa, seu marido e eu trabalhávamos juntos, ele está?
         − Não, ele acabou de sair para uma reunião em Londres, disse que pegaria uma carona no jatinho do seu chefe....
               Lisa verificou as horas novamente. 4:20.

Raphael Costa
http://canecadehistorias.blogspot.com.br/2014/08/o-voo-sentada-na-poltrona-419fitando.html